sábado, 22 de dezembro de 2012


Janeiro 2013         Sinto-me nascido a cada momento
 para a eterna novidade do mundo.
Alberto Caeiro


ACEITANDO O DIFERENTE E SE TORNANDO ESPECIAL

Uma das condições atingidas pelo trabalho psicanalítico  acontece quando o analisando começa a perceber que o mundo não reflete sua realidade, que as pessoas  em volta não são prolongamentos de sua limitada existência. E os paradigmas que o norteiam não são necessariamente a melhor forma de se orientar.

...Que os que existem fora dele não precisam repetir o que conhece como modelo.
Talvez esse seja um dos primeiros degraus que separam a mente infantil do amadurecimento.

Uma admiração encoberta por estranheza ocupa alguns pensamentos ao se depararem com o inexplicado.  As qualidades alheias inquietam, por provocarem  dificuldade em entendê-las.
Como não entendem, não sabem como lidar. Como não sabem como lidar, agridem. Relacionar-se com o diferente instiga, é um desafio à vaidade e à insegurança. Quanto mais audacioso, mais instigante e desafiador.
O observador inadvertido, diante dos que se destacam por diferentes, se pergunta:
- Como ousam ser tão autênticos? Que força os impele a  seguir tão diretamente seus sentimentos, correrem riscos em função do que  desejam ou acreditam?

Pessoas que seguem outros valores que não os seus. os que não  conseguem entender,  criticam.

Mas aquele que tem coragem de mergulhar fundo na angústia            até chegar a uma relativa  tranquilidade, entrando em contato com as próprias  emoções, está se embrenhando pelos lados obscuros da  mente, tocando  os pontos cegos; e,  quando conseguir aceitar o desconhecido que vive no seu mundo interior, vai iniciar                      uma pequena brecha para a aceitação do outro, e do diferente que existe dentro do outro. Vai se preparar para o desconhecido.  Empreender a arte do crescimento. E só após esse exercício, conseguir conviver  (=  Con- viver ).

Disse o grande filósofo e mestre Paramahansa Yogananda:
Receberei de bom grado todas as provas, pois sei que em mim existem a inteligência para compreender e o poder de superá-las.




Continuamos no próximo texto.


ANÁLISE, ARTE DO ENCONTRO


Terminei o texto anterior citando o livre arbítrio, só atingido quando são vencidas as amarras de um mundo interior criado sob a sombra de bloqueios e resistências. Liberdade: fazer o que realmente se quer, resistindo à pressão do desejo do outro, seja quem for, sobre nossas ações e nossa vida.   Isso exige o conhecimento de si mesmo.

            A necessidade de ser ouvido vem junto com a de ser amado. Ela aparece bem no início do tratamento. Há casos que começam a se resolver a partir da atenção recebida. E uma qualidade é fundamental no analista, neste momento, durante e sempre: a paciência. Paciência para ouvir, para esperar cada revelação. É preciso acompanhar o processo da dor das descobertas; senti-la chegando, impregnando o espaço, assimilando-se com a fala.

            Dispor-se a ouvir e ser ouvido. Significando respeito, entendimento, gerando diálogo. Diálogo que faltou ao longo de toda uma vida. No estado de solidão, os tecidos do olhar entristecidos, vibra, fechado, um medo de se expor, um medo de não ser aceito.  Mas no ir e vir de ideias, atitudes, gestos, acontece o que se pode chamar de encontro.
           
            Encontro esperado; que só existe quando as mentes de duas pessoas trocam o que pensam. E cada um sabe aguardar o que o outro tem para dizer. Uma terapia prepara alguém para se tornar capaz do encontro, alguém capaz de se revelar e ouvir sentimentos.

            Minha percepção não ultrapassa o nível dos meus afetos individuais: “nós vemos as coisas não como elas são, mas como nós somos” –  afirmava o filósofo Kant .
           
            A terapia, uma vez iniciada, vai colocar as questões que há muito se faz:
            - Que é o que eu vejo? Como sou para os outros? O início de uma análise provoca um estado de suspensão da realidade emocional no  paciente, estado  oposto ao esperado grau de aparente segurança valorizado nas carreiras profissionais.


            O próprio tratamento, se por um lado desequilibra parcial e temporariamente, por outro, ao  colocar o iniciado  em cena no centro das atenções do setting, enfocando o que ele sente, e não o que deve sentir, vai delicadamente tecendo uma trama–base para uma autoestima saudável, capaz de dar conta do espaço  quebradiço dos “ protegidos “ pelo falso-forte-ego. A passagem dessa substituição de um eu precariamente estruturado, desfazendo-se pouco a pouco, vai servir de ponte para o reconhecimento do seu verdadeiro eu e da segurança do autoconhecimento gradualmente conquistada.

            Os reflexos frustrados, perdidos e difusos da fase inicial de uma infância incompletamente atendida serão substituídos por ferramentas bem mais resistentes  aos desafios que  as futuras experiências  vão  apresentar.


              “O reconhecimento de outrem, a desidealização da imagem parental significariam crescimento” (1).
              Respondendo à dificuldade desse crescimento, desse amadurecimento, surge a busca de ”reestruturação do ego“ . (2)


              O crescimento atingido vai possibilitar o encontro mais completo do ser consigo mesmo e com aqueles com quem se relaciona. 

              É a partir daí que o encontro é possível.

dez/12:ANÁLISE, ARTE DO ENCONTRO


Terminei o texto anterior citando o livre arbítrio, só atingido quando são vencidas as amarras de um mundo interior criado sob a sombra de bloqueios e resistências. Liberdade: fazer o que realmente se quer, resistindo à pressão do desejo do outro, seja quem for, sobre nossas ações e nossa vida.   Isso exige o conhecimento de si mesmo.

            A necessidade de ser ouvido vem junto com a de ser amado. Ela aparece bem no início do tratamento. Há casos que começam a se resolver a partir da atenção recebida. E uma qualidade é fundamental no analista, neste momento, durante e sempre: a paciência. Paciência para ouvir, para esperar cada revelação. É preciso acompanhar o processo da dor das descobertas; senti-la chegando, impregnando o espaço, assimilando-se com a fala.

            Dispor-se a ouvir e ser ouvido. Significando respeito, entendimento, gerando diálogo. Diálogo que faltou ao longo de toda uma vida. No estado de solidão, os tecidos do olhar entristecidos, vibra, fechado, um medo de se expor, um medo de não ser aceito.  Mas no ir e vir de ideias, atitudes, gestos, acontece o que se pode chamar de encontro.
           
            Encontro esperado; que só existe quando as mentes de duas pessoas trocam o que pensam. E cada um sabe aguardar o que o outro tem para dizer. Uma terapia prepara alguém para se tornar capaz do encontro, alguém capaz de se revelar e ouvir sentimentos.

            Minha percepção não ultrapassa o nível dos meus afetos individuais: “nós vemos as coisas não como elas são, mas como nós somos” –  afirmava o filósofo Kant .
           
            A terapia, uma vez iniciada, vai colocar as questões que há muito se faz:
            - Que é o que eu vejo? Como sou para os outros? O início de uma análise provoca um estado de suspensão da realidade emocional no  paciente, estado  oposto ao esperado grau de aparente segurança valorizado nas carreiras profissionais.


            O próprio tratamento, se por um lado desequilibra parcial e temporariamente, por outro, ao  colocar o iniciado  em cena no centro das atenções do setting, enfocando o que ele sente, e não o que deve sentir, vai delicadamente tecendo uma trama–base para uma autoestima saudável, capaz de dar conta do espaço  quebradiço dos “ protegidos “ pelo falso-forte-ego. A passagem dessa substituição de um eu precariamente estruturado, desfazendo-se pouco a pouco, vai servir de ponte para o reconhecimento do seu verdadeiro eu e da segurança do autoconhecimento gradualmente conquistada.

            Os reflexos frustrados, perdidos e difusos da fase inicial de uma infância incompletamente atendida serão substituídos por ferramentas bem mais resistentes  aos desafios que  as futuras experiências  vão  apresentar.


              “O reconhecimento de outrem, a desidealização da imagem parental significariam crescimento” (1).
              Respondendo à dificuldade desse crescimento, desse amadurecimento, surge a busca de ”reestruturação do ego“ . (2)


              O crescimento atingido vai possibilitar o encontro mais completo do ser consigo mesmo e com aqueles com quem se relaciona. 

              É a partir daí que o encontro é possível.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

TEXTO NOV/12:A BUSCA DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - IV



OS BLOQUEIOS E RESISTÊNCIAS
QUE IMPEDEM REALIZAÇÕES NA VIDA


            Acostumado ao atendimento da medicina comum, quem inicia o trabalho de uma terapia psicanalítica chega com a expectativa de que, em pouco tempo, o analista, como faz o médico, vai diagnosticar as causas dos seus sintomas, orientar... e pronto, é só seguir uma receita. Mas a frustração começa quando, em primeiro lugar, o psicanalista não lhe dá um diagnóstico: apenas o ouve, deixando que ele discorra sobre os pensamentos que povoam seu mundo interior e também relate sua maneira de viver, de agir, de ser relacionar.



             A vaga insatisfação, a sensação de infelicidade, a constatação de que nossos relacionamentos e objetivos sempre terminam de forma insatisfatória, são algumas das razões que nos levam a procurar uma terapia.
           
            Ao longo da vida, investimos  nossas energias na expectativa de sermos amados pelo outro, assim como desde crianças aprendemos a agradar a nossos pais  ou àqueles que nos observavam, aprovando ou reprovando. Acatamos a obrigação de desempenharmos determinados papeis que nos foram designados. Sempre que essas exigências estiveram acima de nossas forças, nos sentimos falhar ou experimentamos medo, foi-se formando uma espécie de culpa.

            Iniciando o processo de uma terapia, sondando  esses significados,
vamos nos sentir confusos e perdidos de todas as referências conhecidas ... ao ponto de nos confrontarmos e lançarmos a pergunta: -- afinal, quem somos? O quê queríamos até agora? O quê desejamos daqui para diante? O quê querem de nós?  O quê podemos fazer por nós mesmos?

            Vamos, aos poucos, identificando, em nossa maneira de ser, formas de dor que poderiam ter sido evitadas. Revemos uma tendência a repetir hábitos que causavam simpatia e apoio em alguns, mas que iniciaram situações terrivelmente destruidoras em nossos sentimentos... localizamos todo um cenário de atitudes e um vocabulário de palavras que retratavam uma imagem cristalizada pelo orgulho de um  sofrimento desnecessário.

             Começamos a perceber que a vida inteira olhamos para as situações sempre de um mesmo ângulo, nosso olhar ficou viciado, quando poderíamos ter ousado outras direções, outros espaços, que agora nos são apresentados.
           
            .O papel de sofredor talvez seja uma das últimas dificuldades a serem removidas em algumas terapias, mas, se houver perseverança e coragem, virá uma libertação nunca conhecida, uma leveza que parece abonar o sujeito de uma culpa enorme incutida nele e que nem sabe como iniciou. Na raiz do hábito de sofrer, mora essa culpa. Culpa de quê? Culpa de não corresponder ao que esperavam de nós, culpa de ocupar um lugar de que não gostávamos, quando queríamos  outra coisa... e nosso  íntimo não perdoa: cobra, até nos adoecer. Culpa de carregar esse peso desconhecido de  sermos apenas parte do que poderíamos ter sido... de amarmos apenas um pouquinho, de termos sido amados apenas numa amostra do que tínhamos potencial para vivenciar...

Em sua obra “ Neurose e Psicose” , de 1924, Freud afirma que os pacientes não acreditam facilmente em nós quando lhes falamos sobre o sentimento inconsciente de culpa; e, portanto, não podem admitir que possam abrigar em si mesmos impulsos em conflito com sua razão, sem estarem no mínimo conscientes deles.

Nesse mesmo texto, Freud sugere, também, que existe, na natureza de algumas pessoas, por razões diversas implantada, uma necessidade de autopunição (o sentimento inconsciente de culpa).  Enquanto não o identifica, o sujeito continua a se sabotar e a atuar para sofrer prejuízos que não entende por que aconteceram ( na realidade por que  buscou), mas  é preciso algum tempo de análise e uma boa dose de confiança do paciente no analista para aceitar esse fato.

O homem comum prefere achar-se vítima da falta de sorte. Mas aquele que procura  se conhecer melhor, acaba encontrando esse mundo interior onde tantas razões se explicam. E se libertando das amarras que o impediam de exercer suas próprias decisões, de , enfim, seguir seu livre arbítrio.




TEXTO AGOSTO/12>A BUSCA DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - I


         Terminei o texto do mês passado informando que, em nome do ofício de terapeuta que deseja um planeta melhor, iria dar minha pequena contribuição, através desta coluna, oferecendo o esclarecimento a  um maior número de pessoas, num trabalho de popularização da psicanálise.

         Confiante de que só conseguimos viver bem e contribuir para a comunidade quando conquistamos um grau crescente de autoestima e consequente bem estar, pretendo, em palavras simples, informar o caminho percorrido da maneira mais objetiva que encontrar, no desejo de que cada leitor verifique o que pode aproveitar da minha própria experiência.

O que nos leva a buscar uma terapia?

         No início do século vinte, quando era comum considerarem as pessoas que apresentavam problemas mentais, “ sofriam dos nervos”, como se dizia popularmente, já existia, nos meios de psicologia e psiquiatria, a prática da hipnose. Foi justamente no ano 1.900 que um jovem médico de Viena lançou seu livro “ A Interpretação dos Sonhos”. Através dessa obra, Sigmund Freud abriu um horizonte de inquietação para o mundo ocidental: apresentou o fato de que não é o que pensamos que resolve o que somos e o que queremos, mas existe uma outra instância dentro de nós que, gerando nossos medos e desejos, realmente decide as direções da nossa vida.

         Contrariando, assim, a máxima de Descartes, filósofo marcante do século XVII, até então nunca questionada: Penso, logo existo, com a dedução revolucionária para o pensamento humano:

 Penso onde não sou.

         Tudo o que se prega só passa a ter valor quando provado.  Freud comprovou sua teoria ao atender   pessoas consideradas incapazes de controlar suas emoções e levar uma vida equilibrada, entre elas, principalmente, as histéricas, vítimas de surtos psicóticos, convulsões , atitudes agressivas , melancolia e paralisias. No decorrer de seus tratamentos, à medida em que se revelavam traumas perdidos na memória da infância ,  os sintomas  passaram a recuar, a se espaçar e até  a  desaparecerem.
         No início, utilizava-se da hipnose, mas sua experiência lhe mostrou que seria mais eficiente através da conversa espontânea, que  denominamos livre associação: aos poucos, aquelas experiências recalcadas desde a fase não-verbal, (quando a criança ainda só absorvia a emoção sem conseguir se expressar ), dariam sinal de sua existência  sob a atenção e entendimento do terapeuta.
          Mas Freud descobriu que era preciso ir além da   liberação dos sintomas, que havia mais no fundo desses significados. Pesquisou muito sua própria mente, trocando pesquisas também com grandes doutores da época, como Breuer e Fliess. E criou o método que  vai além da cura dos sintomas : os sintomas são como folhas de uma planta que manifestam suas condições , mas está na raiz, enterrada fundo, a causa  do seu estado físico. Podemos comparar com uma doença física comum: a dor pode ser disfarçada com um comprimido, mas o porquê do sofrimento continua lá, esperando para ser compreendido.

         Respondendo à pergunta inicial:

         Além do sofrimento, da angústia, da ansiedade, que crescem à medida em que a pessoa não dá conta de todas as responsabilidades da vida com prazer ou pelo menos naturalidade, todos que buscamos nos conhecer melhor e entender por que tomamos certas atitudes repetidamente que sempre vêm a nos prejudicar, ou que estamos há tempo tentando viver de uma forma satisfatória e todos os métodos conhecidos falharam, para nós foi criada a psicanálise. E também para aqueles que querem aproveitar o potencial de suas qualidades e talentos e precisam descobrir como lidarem com suas próprias emoções sem se deixarem desviar do alvo .

Uma resposta extra:
        
         Muitas pessoas comentam que a psicanálise é inatingível para alguns, por causa do valor exigido, e isso tem uma resposta: é preciso que o analisando invista muito do seu esforço para um trabalho que vai mudar o seu destino. Se ele perceber,  mesmo contando com poucos recursos, por descontrole se endivida ou dispersa o que tem, sob o efeito da insatisfação.

TEXTO OUTUBRO/12:A BUSCA DO CONHECIMENTO
ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - III

O TEMPO DA TERAPIA:

         “– Quando nos chega um analisando novo e pergunta: quanto tempo você acha que vai durar o meu tratamento?...”,

lembro-me de que atribuem a Freud a resposta,  citando um hábito indígena:  “–  Comece a caminhar, e vamos ver o seu ritmo...

         Mês passado, iniciei o texto com uma citação:

“Tudo nos falta quando nos faltamos.”
De Goethe.

         Cito, agora, uma frase que cria uma linha de ligação com aquela:


“– Não se pode acrescentar uma gota de água a uma taça já cheia.” De Tolstoi, profundo conhecedor da alma humana.

        
Quando partimos da angustiante sensação da falta e atingimos um grau suficiente de autoconhecimento, de preenchimento, vivendo bem “resolvidos” nas principais questões, quando nos sabemos aptos para enfrentar os problemas que surgem como desafios e não como castigos da vida, tragédias que” só acontecem conosco”, podemos afirmar que atingimos uma condição já satisfatória. Mas o objetivo da terapia não é apenas remover incômodos, retirar dificuldades, nos tornar mais fortes.

         QUEREMOS MAIS DA VIDA!

         Como na estória do elefante acorrentado, que desde pequeno tentara se libertar, atado a uma estaca desde recém-nascido, e se acomodara à ideia de não ter forças para ousar mais tarde, muitos se conservam presos a registros aceitos sob o comando de “não posso, não devo, nunca poderei!”

Aos poucos, como numa escultura, percebemos que, por detrás de tantos disfarces, (como dizia Michelangelo diante da pedra bruta), existe um anjo a ser descoberto lá dentro! Aos próprios olhos, o sujeito portador do problema não consegue se ver vitorioso, desvencilhado das amarras que o impedem de seguir.

         O trabalho prático  começa a funcionar através do contato que acontece nas entrevistas entre o  terapeuta e o paciente. As comunicações vão tornando evidente o que  precisa se enxergado, vão surgindo, através da “livre associação” das idéias que traz, algumas pistas das “pedras” a que se acostumou no seu percurso. Isso é “elaboração”.
        
         O que está escondido no inconsciente do analisando, suas memórias, algumas observações entre suas falas distraídas, suas queixas, suas regras na maneira de levar a vida, e entre  esse material, para o analista  atento, as atitudes  que o traíram, os hábitos que se estabeleceram, deixando-o repetir, cegamente, atitudes que, aos poucos, o foram adoecendo, fazendo-o perder o que não perderia,  se tivesse percebido antes. O terapeuta vai recebendo as informações na “escuta psicanalítica”, guardando em sua memória para no momento adequado dar um “ toque”, que se chama em psicanálise “ “pontuar”. Lembrando, se preciso, o compromisso
entre o terapeuta e o cliente de passar por momentos de dificuldades, e nenhum dos dois abandonar o barco.

         Quando surgem fases que encaminham o trabalho justamente para ir mais fundo e assim descobrirem o que está atrapalhando para  levar melhor sua vida, surge o fenômeno (que vem do inconsciente) chamado “ Resistência”. É como numa escavação, que se encontra uma camada  mais dura e se vai, com cuidado, removendo. Ou, como quando se inicia uma dieta, um curso, um namoro; qualquer coisa que represente melhorar sua vida, também pode ocorrer esse fenômeno. É a antiga memória de viver amarrado ao “não posso, não consigo”. As resistências precisam ser corajosamente enfrentadas para que ele vá vencendo, passo a passo, com dificuldade, mas determinação.
        
         Quando a nossa mente se recusa a enfrentar um assunto, ela promove algum tipo de fuga, que pode ser um esquecimento, uma doença, uma racionalização (uma explicação razoável para a pessoa não comparecer, como, por exemplo: “não tenho tempo, não tenho dinheiro “...).

         Às vezes, a pessoa melhora um pouco e acha que já conseguiu muito: no fundo, é a velha sensação de que não merece mais, de que está bom, assim. A nossa natureza tende, sempre, a se acomodar. É preciso atravessar a resistência.
E, quando conseguimos superar as primeiras e seguintes barreiras, ficaremos surpresos e felizes ao nos acostumarmos aos novos padrões: os de vivermos bem, em paz conosco, em harmonia com o que nos cerca,  com a capacidade de melhorar tudo com o que nos comunicamos.


TEXTO SETEMBRO/12:A BUSCA DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - II “Tudo nos falta quando nos faltamos” Goëthe No texto anterior, terminei comentando que Freud, ao inaugurar a psicanálise, apontou para as origens do sofrimento, enquanto a medicina e a psiquiatria da época só buscavam eliminar os sintomas. Ele descobriu a força do inconsciente na geração das patologias, primeiro, através da hipnose, e, em seguida, utilizando apenas o processo verbal. Até hoje, nas sessões, sugerimos que o paciente se deite ou permaneça sentado e fale livremente tudo o que lhe vier à mente. Este método se denomina de livre associação. Pela livre associação, o analisando vai discorrendo sobre suas memórias, aquilo que o incomoda, suas mágoas e ressentimentos, suas inquietações antigas e recentes. E vão surgindo lembranças que fundaram situações marcantes, até um ponto em que podem desbravar descobertas úteis à solução de seus problemas. O analista, ouvindo o relato, permanece em silêncio ou apresenta suas opiniões, o que se chama pontuar. A atitude do analista se nomeia de atenção flutuante. Ele pode parecer distraído, mas sua atenção está sempre conectada com a linha de pensamento do analisando. Observando, por exemplo, atos falhos, que são palavras pronunciadas sem intenção, significantes trocados, tudo revela algum sentido na interpretação, trazendo o inconsciente puro para ser reconhecido. Ou, ainda, interpretando o significado de sonhos, também importantes pelo fato de virem direto do inconsciente para a descoberta das razões que há muito estão atuando sobre as ações daquele sujeito. TEXTO SET/12 Nossos Dois Lados Uma das descobertas importantes da psicanálise, ainda em Freud, foi o fato de existirem em nós forças diferentes vindas de uma origem psicofísica e que geram nossas ações, decisões, escolhas afetivas. Explicando de forma bem simplificada, podemos afirmar que todos temos dois lados que conduzem nossa vida emocional: aquele que trabalha num sentido destrutivo, denominado pulsão de morte, e o que contribui para atingir nossos objetivos de bem-estar, o positivo, pulsão de vida. O desânimo, levando à depressão, por exemplo, representa a pulsão de morte; o entusiasmo, a alegria, atitudes de colaboração, a pulsão de vida. Mas eles não estão sempre assim separados, esta é uma forma didática de descrever. Eles já existiam na explicação da formação do mundo, em Tanatos, a força da morte, e Eros, a força do amor e da vida, na filosofia grega. Na condição de seres humanos, corremos sempre o risco de, enganados pela ilusão de alguns desejos, nos deixarmos guiar por impulsos que dispersam o sentido de nossas verdadeiras intenções. Seria, nesse caso, a predominância da pulsão de morte sobre a pulsão de vida. A terapia vem, então, para nos revelar onde e quando atuamos contra nossa própria vontade, a que formas inconscientes estão nos comandando, a despeito de nossa vontade principal. Se observarmos, esse tema inspira quase todos os roteiros de filmes, novelas e dramas em geral: a luta para se atingir um ideal de felicidade e as forças contrárias internas e externas atuando em desfavor. Revendo, nas sessões de análise, os acontecimentos, as perdas e os ganhos de nossa existência, vamos reconhecendo o que nós mesmos fizemos “ sem querer” para não realizar determinados objetivos, como contribuímos para desfazer uma relação amorosa, uma harmonia familiar, um empreendimento que poderia ter sido bem sucedido. Vamos, aos poucos, nos familiarizando com nossas “ forças ocultas “, e entrando na verdadeira intimidade do nosso verdadeiro “eu”. V

sexta-feira, 8 de junho de 2012

ONDE ESTÁ A NOSSA SOLUÇÃO “ Ninguém se encontra numa situação; você se coloca numa situação. E se você se colocou nessa situação, pode colocar-se em outra.” Rabino Menachen M. Schneerson (Rebe de Lubavitch) * “ Força-te, força-te à vontade e violenta-te, alma minha;mais tarde, porém, já não era tempo para te assumires e respeitares. Porque de uma vida apenas, uma única, dispõe o homem .E se para ti esta já quase se esgotou, nela não soubeste ter por ti respeito, tendo agido como se a tua felicidade fosse a dos outros... Aqueles, porém, que não atendem com atenção os impulsos da própria alma são necessariamente infelizes.” Marco Aurélio * Os pensamentos acima de alguma forma me lembram a história de um sábio que vivia em completo estado de felicidade e por isso despertava a curiosidade de seus vizinhos. Ninguém conseguia descobrir seu segredo. Até que um dia, uma criança, com simplicidade, perguntou-lhe onde ele escondia tal tesouro. E ele, com naturalidade, explicou que ninguém o encontrara porque estava dentro dele mesmo, em dois lugares: em sua mente e em seu coração. Através do coração, sentia-se ligado a todos os seres vivos. E, através da visão mental, iniciara há muito o hábito de gostar de si mesmo, valorizar suas realizações, considerar-se uma pessoa significativa. E isso era autoestima. A partir desses dois princípios, experimentava uma constante paz interior e desenvolvia ações que sempre geravam harmonia em volta. Não sofria da inveja que causa tanta insatisfação, lamentando o sacrifício que alguns faziam para se comparar aos valores alheios. Valorizando a própria solidão, sem medo de ficar sozinho, evitava participar de grupos que nada acrescentam ao precioso tempo da existência. É muito interessante o jogo que a natureza faz: aqueles que temem ficar isolados, envolvem-se num clima de lamento e carência, afastando as companhias que mais desejam; e os valorizam sua individualidade, convivendo com o silêncio e fugindo dos excessos de barulho da multidão, passam a ser os mais procurados. Assim como o sábio, quem investe no próprio coração e na vida interior, reúne as forças que vai precisar, ao longo da vida, para o estado de felicidade.
Maio/12 PODEMOS CONDUZIR OS ACONTECIMENTOS DA NOSSA VIDA ATRAVÉS DO CONTATO COM O INCONSCIENTE Quando alguma preocupação está nos afligindo, se nos entregarmos a ela, deixando que tome conta da nossa atenção e se transforme num forte medo, estamos trabalhando nossa mente contra nós. Mas se, ao surgimento de um problema, ameaça ou desafio - como gosto de nomear qualquer tipo de dificuldade - decidirmos que já existe dentro de nós ( no nosso inconsciente) uma solução para a situação, iniciamos um processo positivo de autoencorajamento, criamos condições para que, seja de que natureza for o objeto a ser enfrentado, entre em ação uma resposta, uma decisão, uma solução. A confiança no poder do nosso inconsciente tem sido muito utilizada nos últimos tempos pelas diversas terapias, tanto as oficialmente aceitas, como as diversas formas alternativas de tratamento, algumas bem questionáveis por aqueles que se debruçaram anos nos livros, no estudo e na orientação de uma formação completa para chegar a se autorizar na atividade que atua na mente de seus semelhantes. A busca do mágico, também excessivamente comum, na fantasia de encontrar saídas fáceis para questões acumuladas ao longo de sua história de vida, prometida por oportunistas da ingenuidade dos desprevenidos, cresce à medida em que ainda não se aprendeu a pensar por si mesmo, a mergulhar no manancial de significados que compõem nossa personalidade. Se empreendermos um trabalho de autoconhecimento, inicialmente orientados por bons profissionais, como psicanalistas com formação feita em instituições reconhecidas, mestres consagrados em yoga, meditação, sacerdotes conhecidos por seu bom senso na comunidade, com o tempo aprenderemos a lidar com a parte ainda escondida de nosso mundo interior. Vamos desenvolver uma prática tão efetiva como realizamos com nosso corpo, quando orientados por eficientes personal trainers ou professores de ginástica. Ao nos depararmos com algum tipo de situação para ser resolvida, será natural e até automático tomarmos a atitude de nos voltarmos para nosso inconsciente. A mente, familiarizada com o hábito de entrarmos em contato com os significados que estão lá à nossa espera, está sempre pronta a nos atender e decidir sem erro; a sensação de conforto, leveza e confiança vai confirmar que obtivemos a decisão melhor para cada opção. Guiados por esse tipo de segurança, sentiremos que se afasta a ansiedade, elimina-se o estado de dúvida e o perigoso hábito de nos confidenciarmos com pessoas que não nos conhecem profundamente, só para aliviar a tensão, só pelo medo de não ficar um pouco sozinho e saber esperar por um contato autêntico. Os iniciados no conhecimento em busca da sabedoria terão o privilégio, neste mundo, de viverem num estado bem próximo da felicidade, que se inicia pela paz de espírito, e servirem de companhia para os que também desejam aperfeiçoar seu desempenho no espaço da família, da profissão e na comunidade. É a partir de indivíduos assim que se realiza a paz mundial.
Abril/12 ABRIR MÃO DO DESEJO OU SABER ESCOLHER? À medida em que sentimos o tempo passar, mesmo sendo muito jovens, se não atingimos uma forma de vida desejada, parece que nunca mais vamos conseguir chegar lá. O desânimo é um convite que se instala ao nosso lado, dentro de nós. É preciso uma determinação especial para prosseguir, pois o caminho é feito de cada vitória sobre o desânimo, desde o momento de despertar a cada manhã. Se parece mais fácil a fuga em forma de medicamento, droga, reclamação, por outro lado torna-se mais difícil a decisão de reagir e mais intensa a sensação de que não vale a pena nem tentar. Uma força especial acompanha aqueles que não desistem. Uma bênção da vida fortalece aqueles que resolvem desafiar as dificuldades. Essa bênção pode surgir na presença de alguém que acredita em nós, que não desiste de crer no nosso valor, que vê, como Michelangelo via, no mármore ainda bruto, a escultura do anjo já pronta. Mas é preciso dar o primeiro passo. Ainda que não apresentemos o perfil daqueles que a maioria considera os “vencedores”, o início de tudo é sabermos que podemos ser diferentes e confiarmos na nossa individualidade. Que podemos estar “atrasados” em relação ao que a maioria chama de ‘sucesso”, mas que estamos descobrindo nossa forma de caminhar, inventando o nosso ritmo. Acreditando assim em nós mesmos , estaremos dando oportunidade para que alguns comecem a ter fé no que temos a dizer ao mundo. E todos temos um recado, um trabalho, uma missão a cumprir. Se não desistirmos, acabamos descobrindo . Ao acontecer mais de uma oferta no nosso caminho, teremos que decidir a direção a tomar. Nossa primeira tendência será optar pelo mais fácil. Abrindo mão, talvez, do desejo de fazer o que realmente se gosta. Saber escolher exige coragem e ausência de culpa. Culpa? Por quê culpa? Culpa, em psicanálise, se identifica quando se assume alguma posição pensando em agradar a alguém, e, no fundo, não é bem o que se deseja. Ou quando se acha que está tendo mais valor seguindo aquela situação, porque é o mais aprovado pela maioria. Ou, ainda, porque sente que, fazendo o que lhe é tão prazeroso, nem parece merecer pagamento. A culpa é uma das piores armadilhas do inconsciente e um dos inimigos que uma terapia eficiente elimina. Quando se supera essa dificuldade, a escolha está sendo feita com sabedoria. Aqueles que conseguiram ter uma vida que lhes dá prazer de viver, e em consequência acabaram sendo reconhecidos como vitoriosos, mesmo sem buscar esse reconhecimento, foram os que seguiram seu coração, iniciaram uma atividade que amavam realizar. Mesmo sendo diferentes da maioria, mesmo levando mais tempo para se definirem. Foram aqueles que tiveram fé em si mesmos. E, se contaram com mais sorte ainda, receberam o apoio de quem acreditou neles, como escreveu Goethe: Se você tratar um indivíduo como ele é, ele permanecerá como tal. Mas, se você o tratar como se fosse o que deve e pode ser, ele se tornará o que deve e pode ser. Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832 )
Março/12 O DESAFIO DE VENCER A IMAGEM DE PERDEDOR O trabalho do analista é favorecer a autoconfiança do analisando de forma a ele vencer a luta do seu lado positivo contra o negativo; apontando, através das narrações que ouve dele ou mesmo das queixas dos familiares, - quando se trata de adolescente -, o que faz para se sabotar sem perceber, mostrando como provoca o amor daqueles que o cercam. Aquele que precisa sempre se certificar de que é querido, faz coisas que incomodam, falha nas promessas feitas, mantendo uma imagem negativa diante de todos com quem convive; no fundo, quer ver se o aceitam mesmo assim. Quando isso é pontuado na terapia, e se torna consciente, começa a rever suas atitudes; aos poucos, vai percebendo que estava trabalhando contra si mesmo. Quem, em várias situações, começa a testar o limite da paciência dos outros, gasta uma energia emocional que lhe rouba forças para direcionar a mente em focos mais produtivos, como buscar uma atividade de que goste, um novo estudo, iniciar algum trabalho. A reação para vencer a inércia, o desânimo e a desistência é um processo de desenvolvimento sujeito a recaídas, mas o terapeuta conta com essa evolução. Observa tranquilo os relatos de idas e vindas, estimula as retomadas. O mais difícil, talvez, seja a aceitação da família e do meio em que o paciente já instalou uma imagem de “sem solução”. Quem demorou algum tempo, meses, anos, às vezes, mostrando-se sem esperança de atender à expectativa dos que o amam, precisa ser alertado de que pode não encontrar acolhimento daqueles que ficaram cansados com seu comportamento. Vai precisar de uma constante vigilância na recuperação dessa imagem. O que nem sempre é fácil para quem está buscando a própria autoconfiança. Como abordar essa aparência negativa? Conseguindo ver através da superfície, tendo fé no conteúdo que mora no fundo de cada um, esperando que se desperte o espírito. Porque, se existe uma reação, uma tristeza, uma provocação, são sintomas que significam pedidos de atenção. Como o choro de uma criança. Vamos acreditar que será despertado o ser melhor dentro daquele que está sendo tratado para, enfim, encontrar sua razão de existir. Porque não vamos ter dúvidas: o que mais dói em todos é não entender a razão pela qual existem. Precisamos saber que ele é o primeiro a sofrer muito vivendo assim. Está faltando um toque, um momento, um encontro de almas para ele reagir. Vamos confiar que essa solução virá quando ele se der conta de que não consegue nada de bom estragando sua imagem com quem lhe quer bem. Precisamos acreditar que seu lado saudável vai vencer. Estamos buscando, juntos, um tesouro. Ainda não sabemos a profundidade em que está enterrado. Precisamos continuar cavando. Vencendo as camadas de falta de autoestima, de insegurança, de fracassos. Elas montaram uma defesa muito forte. Ele mesmo não está acostumado a acreditar que carrega um grande poder no seu mundo interno. Imaginando-se sem valor próprio, age já se sentindo não merecedor da confiança alheia. E suas reações podem ser agressão, revolta, ou simplesmente depressão, desânimo. Desfazer essa dificuldade é nossa missão. Exige de nós a arte de deslindar um novelo todo emaranhado com as pontas em nó para dentro. Vamos empreender essa obra.
Fev/12 A CARÊNCIA E A PROPOSTA DE VIVER BEM Seja você a mudança que quer no mundo. Gandhi Conta uma estória que existia um reino onde o rei, a rainha e a filha viviam sempre felizes. Todos do reino se sentiam também felizes, pois eles não eram egoístas e procuravam distribuir bem as riquezas da terra. Sempre que aconteciam desgraças, epidemias, perdas grandes para o reinado, o rei dizia para a mulher e a filha: “- Que pena que aconteceu isso; ainda bem que somos felizes...” Ser feliz é uma atitude. Não depende do que nos acontece. Assim como ter nossas convicções e agir de acordo com elas, não é preciso esperar que tudo em volta de nós se transforme. Chegou a hora de perceber que não é transferindo nossos problemas para explicações sobre carma, sorte, horóscopo, que vamos resolvê-los. Ao contrário: enfrentando o que nos atemoriza, o peso das ações e consequências negativas se desfaz. Explicar uma existência inteira com razões fora do alcance para mudar o que acontece agora, é como se nos mantivéssemos nos primeiro ano escolar e sempre repetíssemos o mesmo período porque nos recusamos a aprender. Existindo ou não a lei cármica, ela precisa ser bem entendida: carma, em sânscrito, quer dizer ação. Estar sob a lei cármica significa sofrer a consequência de uma ação, que o espiritualistas localizam nas vidas passadas. Mas como atingir uma vida já passada, ou viver se desculpando que não consegue mudar, porque aquele é seu carma? Se sofremos, atingidos por fatos tristes, a atitude a fazer é focar, objetivamente, o que está acontecendo e entender as causas. Sejam elas presas à infância, sejam elas anteriores, para quem crê. A observação das causas que aparecem no problema presente é um começo de entendimento. Um exemplo simples: alguém sofre, desde a infância, de um tipo de doença física ou mental. Temos exemplos de quem busca enfrentar a condição até transformá-la numa qualidade positiva e de outros que se entregam e se tornam, a vida inteira, dependentes de ajuda. O conhecimento vai nos mostrar a saída. Fazendo tudo o que nos compete, estamos nos livrando de prolongar o estado de tristeza. Aprendida a lição, podemos viver libertados e seguir para a realização do nosso arbítrio. Quando a melancolia e o desânimo começam a ocupar um espaço ameaçador no mundo emocional, o estado de fadiga se estabelece, querendo travar todas as forças. Essas são características geradas na carência que até certo ponto é natural em todos nós. Ninguém está tão preenchido e satisfeito, que não precise de carinho e atenção. Se dermos força à carência, à condição de desamparo que existe em todas as almas humanas, com certeza vamos ampliá-la e torná-la um hábito. E vai ficar cada vez mais difícil libertar-se desse condicionamento. Como fugir dessa armadilha? Os gregos diziam: Se queres a paz, prepara-te para a guerra. A capacidade de reagir é tanto maior quanto a disciplina adotada de pequenos bons hábitos que não nos desamparam. Se costumamos a cada manhã observar nosso corpo, nosso ânimo, tomar consciência dos nossos sentidos, praticar respiração, entrando em contato com o dia, recebendo-o independente de frio, calor, chuva... Se adotarmos o hábito de não nos lamentarmos, como tantos fazem, e passarmos a olhar a tudo como bênçãos vindas da natureza... se mantivermos a disciplina , como fazem os yogues, que se harmonizam com o ambiente, agradecendo sempre a tudo e à luz de cada pessoa , dizendo: Namastê! , que significa, “ O meu Deus interior saúda o Deus dentro de você” ... Será mais suave o caminho da vida, independente das agruras, das dificuldades e do peso da responsabilidade que todos carregamos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Janeiro/2012

OS SEM IDADE

Tratando do fato de que a vida está mais válida e mais longa, principalmente para quem a encara com vontade de entender seus significados, de quem mantém a curiosidade aberta para o novo, o programa Saia Justa,do GNT, de 13 de novembro de 2011 apresentou
Marilu Beer, artista plástica que assume seus setenta e um anos como um exemplo de quem usufrui tudo o que faz, incluindo aí , além de sua arte, fazer supermercado, arrumar casa, cozinhar. Um exemplo vivo de quem não está tentando ansiosamente congelar uma juventude através de excessivas atitudes forçadas. Mas que detém um pensamento sempre renovado.

No referido programa abordavam esse novo perfil de pessoas que não se enquadram nos tipos comuns de seu grupo de idade, porque estão sempre se redescobrindo, abrindo espaços onde realizam atividades que lhes oferecem satisfação, sem serem necessariamente coisas extraordinárias e famosas. Sendo cheias de vida na maturidade, a mídia não estava sabendo como cuidar delas, pois não se enquadravam nos nichos comuns do público alvo.

Os ageless, que em inglês significa sem idade.

Por estarem ocupados participando do que desperta sua curiosidade, adquirem um tipo de energia que impulsiona seus gestos, suas descobertas.

Tornaram-se alguém com quem se quer conviver, alguém que se quer perto e se escolheria para compartilhar uma conversa, um passeio, uma viagem. Uma vida.

Para tornar-se alguém assim,o caminho passa longe daqueles preocupados só consigo mesmos, daqueles que agem esperando consideração, admiração, prêmios, títulos. Sua busca se identifica com a determinação de ser generoso em oferecer o que descobre de bom, em contribuir para que ao redor, os próximos, fiquem bem. Porque está atento, sabe ver, sabe ouvir. Sabe perceber sem palavras; sem por isso se sentir bom, admitindo-se também como falho e humano, capaz de, em função dos acontecimentos, alegrar-se ou ficar triste, quando a dor vem.
Porque não estamos falando de superhumanos, apenas de gente como você e como eu que não desistem de vencer as dificuldades .

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