domingo, 7 de novembro de 2010

texto nov.10
A GENEROSIDADE QUE PREJUDICA
UM PROBLEMA PRÁTICO QUE CAUSA MUITO SOFRIMENTO EM FAMÍLIA

A mente que se abre a uma nova idéia, jamais volta ao tamanho original. Albert Einsten

Quando entendemos uma situação claramente, por mais difícil que nos seja, precisamos mudar nossa atitude.
Problemas em família: são muitas e variadas as situações em que se identifica, numa família, um dos membros como aquele que sempre dá conta de suas responsabilidades, é o procurado para solucionar problemas e socorrer nas dificuldades.
O que será que acontece, em sua mente, quando medita sobre o que significa para aqueles que sempre ajuda ? Pergunta-se de vez em quando como seria na situação inversa, até que ponto contaria com o apoio daqueles a quem sempre atende?...
Se não consegue responder a essa pergunta, uma certeza tem: ao longo de toda sua existência conseguiu observar as causas, as raízes mesmo, dos momentos em que seus beneficiados iniciaram o processo de seus erros: estava claro, diante de seus olhos, quando os via assumirem compromissos acima de suas posses, assistia às promessas que, sabia, eles não estariam hábeis para cumprir. Mas ao mesmo tempo, sentia-se impedido de expressar um comentário ou crítica. Via, diante de si, um muro de defesa gritando: “Não me venha com críticas, não desmanche a sensação deste momento em que me sinto grande, poderoso, feliz!” Quando tentava uma frase de juízo, de advertência, era visto como “estraga prazeres”, ou até invejoso, que não conseguia ver as pessoas bem, alegres.
Só que a falsa alegria dura pouco. Algum tempo depois, aqueles mesmos que resistiram tanto à sua tentativa de enxergar a realidade, vinham, humildemente, ou dramatizando, pedir seu apoio. Fazendo-se de vítimas da sorte, afirmando não querer ouvir conselhos, mas contando com a sua generosidade.
A história se repete assim de geração para geração. São inumeráveis os exemplos de situações em que pais, irmãos, filhos, parceiros atuam vivendo na fantasia para em seguida buscarem ajuda. Palavras dramáticas, apelos desesperados. E aquele que teve juízo em programar sua vida dentro de limites possíveis aos seus passos, muitas vezes desequilibra seu orçamento, suas forças e seu emocional para atender aos que ama. Pensando que a única forma (como lhe apresentaram) de continuar amando e sendo amado é atender ao pedido. Que, deixando de atender, estará falhando no seu amor, perdendo o afeto daqueles de quem gosta e cuida. Que dele depende a salvação daqueles que, mais uma vez, em sua megalomania, perderam e controle.
O que diferencia muito essas pessoas que contam com os outros é que com certeza vão continuar nesse comportamento até o momento em que sentirão um limite nas suas reivindicações. Até que consigam parar e tentar entender onde erram. Até que não voltem a pedir apoio já com a frase preparada: “Não interessa agora ver de quem é a culpa. Preciso da ajuda.”
Mas se àquele que conta ilimitadamente com o apoio da generosidade do outro falta uma visão crítica das causas que o levam a repetir o comportamento, também uma responsabilidade cabe, e grande, ao que está sempre disponível para atender.
Irônico, mas talvez o mais responsável seja justamente aquele que sempre está pronto para “tapar os buracos” dos que se dizem necessitados, e que ele atende por senti-los mais fracos. Se ele finalmente, através de um conselho ou uma terapia, se der conta do mal que está ajudando a construir e tentar se negar, qual sua surpresa ao perceber que tudo que já fizera antes em prol do outro será considerado perdido, o grande afeto e toda doação do passado de sua vida será cancelado no “não” do presente...
Um jogo está no tabuleiro da vida para ser entendido. Um gesto afeta o conjunto. Valerá à pena continuar se chantageando pela própria necessidade de sentir-se querido, mesmo que sob condições? Ou se deu conta, enfim, de que chegou o momento de não se deixar ser usado e executar sua verdadeira ajuda, na atitude sadia (que poderá ser interpretada como egoísmo) de interromper esse engano?

Este assunto está se tornando uma constante na clínica da terapia familiar, por isso escolhi como tema. Parece não se enquadrar nem em psicanálise nem em esoterismo, o título desta coluna. Mas tem tudo com ambos: psicanálise, porque trata de um dos trabalhos mais difíceis no desenvolvimento de nossa autoestima. E esoterismo: entra no conceito do que é a verdadeira generosidade, sem pieguismo nem necessidade de se sentir espiritualmente bom.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Outubro / 10

AS DUAS ÁRVORES, A PAIXÃO E O DESAFIO DA UNIÃO

Um dos benefícios de fazermos análise é adquirirmos coragem de dizer o que pensamos e fazer o que desejamos sem o temor de desagradar a quem nos provoca ações que não gostaríamos de atender.
Por que tanta gente tem atitudes das quais depois se arrepende? Por que lhes falta a coragem de não se deixarem levar pela pressão de pessoas que lhes torcem a vontade, sejam amigas, parentes ou parceiros de alguma atividade? Temem dizer não às reivindicações alheias, por medo de desagradar, receio de perder a amizade.
O ser humano, desde criança, precisa aprender a delimitar os seus contornos e a reconhecer as fronteiras do seu espaço com relação aos outros. Se não aprendeu na tenra idade, sente cada vez mais dificuldade em expor sua própria vontade e definir seus direitos para com os que vivem perto.
Viver só. Viver perto. Viver junto. A arte de conviver é sempre um desafio. Os desafios podem ser recebidos com entusiasmo. Alguns preferem fugir deles.
O mundo inconsciente, a parte oculta da mente, é um campo onde se escondem emoções e sentimentos que se teme reconhecer. Porque exigem atitudes isentas e adultas.
Observando duas árvores muito bonitas, notei que estavam num determinado ponto tão entrelaçadas que pareciam ser uma só. Mas em seguida cada uma se organizava ao lado, individualizada, gerando seus próprios ramos e folhas.
Metaforizando para o humano, pensei no encontro de grande paixão, quando o casal, tomado pelo encantamento, se torna um só. E como tudo na natureza não se mantém igual, a própria vida exige que se continue evoluindo, realizando missões, produzindo. Só que alguns, paralisados pelo prazer, pois o prazer, como o medo, também pode paralisar, negam –se a continuar amadurecendo e cumprindo com os outros papéis que se espera dos adultos, meio inconscientemente decidem se manter nessa fase, recusam a responsabilidade dos encargos que vêm junto com o compromisso do amor . Partem indefinidamente para novas paixões, como se só quisessem saborear o mel da relação. É o que acontece com tantos que, depois de algum tempo, buscam aventuras. Não conseguem vivenciar a outra fase da beleza da vida, onde cada um assume seus encargos e se desenvolve, fortalecendo-se a partir da realidade.
Lendo “O Mal, o bem e muito além”, de Flávio Gikovate, encontrei um reforço para o pensamento acima:
O individualismo corresponde, de fato, a uma aquisição importante: maior capacidade para ficar sozinho...
... busca a aproximação, e não a fusão com o parceiro. À aproximação de dois inteiros tenho chamado de +amor, mais que amor, algo que se aproxima muito da amizade, do companheirismo. Trata-se de uma aliança que ameaça muito menos a individualidade e que é muito mais compatível com a realidade dos dias que correm.

Alguém assim libertado terá estrutura, mais tarde, na velhice, e forças capazes de amparar o outro, se necessário; ou, acontecendo de perdê-lo, num dos pontos do caminho, mesmo assim conseguirá sobreviver bem.
Como as duas árvores, é bonito ver um casal unido, mas mais lindo ainda quando se observa que ambos superaram as dificuldades do percurso; respondendo criativamente aos desafios de sua história.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Setembro/10


O ENCONTRO

Ouvindo a descrição de um amigo chegado de Manaus sobre a força expressiva do encontro das águas do rio Negro com o Solimões, meu pensamento, à medida em que ele descrevia como no início é tumultuado o encontro desses dois, começou a imaginar o que acontece em algumas relações humanas.
O Negro, maior aflutente da margem esquerda do Amazonas, o mais extenso rio de água negra do mundo, e o segundo maior em volume de águas — une-se ao Solimões, e a partir desse encontro se tornam o maior rio do mundo, o Amazonas.
De origens diversas, cada um traz em sua natureza diferenças que perduram durante uma longa parte do caminho. Mas a união fica tão forte que as diferenças vão se desfazendo e prevalece a soma; eles, mais para adiante, vão- se unificando e suas águas ficando mais calmas; o próprio nome , como acontece com muitos casamentos, se converte num só.

Aproveitando a lição da natureza, para que aconteça um encontro significativo entre duas pessoas, precisamos levar em conta as origens de cada um, os registros que trazem de suas histórias.
Outro dia ouvi a seguinte frase: O passado nunca morre. Ele nem sequer é passado.
Se por um lado existe um componente que identifica aqueles que se vão amar, ainda restam, apesar dessa sintonia, muitos significados a serem trabalhados. Cada um carrega consigo a soma de caminhadas; uma palavra que consegue feri-lo muito, para o outro pouco representa. Será com essas diferenças que se vai construir história. Criar novas mensagens.
Uma das questões é identificar até onde a tolerância de cada um aceita encostar nas prioridades do alheio, qual a distância que desenha o respeito pelo parceiro de famíla, amor, trabalho, sem restar a sensação de que a vida continua lhe devendo algo.
Em seu magnífico livro O Profeta,Gibran Kahlil Gibran fala aos amantes para que bebam do mesmo vinho, mas não da mesma taça.
Rainer Maria Rilke nos ensina, em seu livro Cartas a um Jovem Poeta, que os muito jovens, encantados com a descoberta da paixão, correm o risco de desmancharem seus limites um no outro e se perderem de si mesmos, acabando, assim, por empobrecer o próprio amor.
Quando se chega para um encontro de vidas, inicia-se um processo de revelações: aos primeiros contatos, todo um sistema neuronal de zonas distintas do cérebro favore um estado de euforia que tudo embeleza e estimula. Na continuidade da convivência, vão-se apresentando os traços da personalidade onde estão presentes medos, fantasias de perda, onde muitas vezes um dos dois não consegue aceitar que tem o direito de ser feliz. Que a vida pode ser boa. Mesmo com todos os fatos lhe oferecendo oportunidade de se sentir abençoado pela saúde e amor, mantém a expectativa de que em breve tudo poderá se diluir. A força dos traumas experienciados na infância, a convicção formada por uma culpa que se instalou, nega-lhe a paz de espírito e evita que receba um prêmio por temer perdê-lo logo adiante.Uma culpa que precisa ser tratada até ocupar sua posição de normalidade, ou melhor: voltar a ser apenas uma semente no inconsciente.

Como a junção desses dois rios, toda união terá um sentido maior quando cada um souber , sem perder seus próprios valores, se entregar de alma aberta; não lamentando os desencontros anteriores, mas agradecendo à vida por todos os tumultos e dificuldades passados: foi através deles que se tornaram prontos para o encontro mais completo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Texto para agosto 2010
Revista Prana

PSICANÁLISE E ESOTERISMO

OS QUE CONSEGUEM E OS QUE SOBRAM

No texto de 4 de julho na Revista de Domingo do Globo, Martha Medeiros enfocou magistralmente um tema que aponta para um dos grandes empecilhos do desenvolvimento de muitas vidas: a existência de pessoas que se mantêm perdidas em seu caminho – os que empatam e os que buscam um foco. Comparando com o futebol, lembrou do desempenho de Pelé, que sabia como pegar uma bola e levar direto à rede. Fala da alma de artilheiro, que chega ao campo perguntando logo onde é o gol.
Observa como uma grande parte vive a vida chutando para todos os lados, contando com a sorte para empurrá-las. Como desperdiçam energia!

Copiando na íntegra um parágrafo:
“Quase invejo quem tem tempo a perder: sinal de que é alguém irritantemente jovem, que ainda não se deu conta da ligeireza da vida. Já os veteranos não podem se dar ao luxo de acordar tarde, e, no caso, “ acordar tarde” não significa dormir até o meio-dia: significa dormir no ponto, comer mosca. Não dá. Depois de uma certa idade, é preciso ser mais atento e produtivo. “

Penso naquelas pessoas que vivem sofrendo um problema e nada fazem para mudar. Sinto por todos que adiam suas soluções, achando que vão dar conta. E o tempo passa. Os anos passam. A vida passa.
Os que buscam e se mantêm no foco – os que realizam – e os que se perdem e atrapalham. Mas ainda existe um outro tipo: os que se deixam atrapalhar. Os que são coniventes e culpam o atrapalhador pelo seu insucesso.
Convivemos algumas ou muitas vezes com quem vive enrolando suas decisões. Podemos, se consultados, até ajudá-los a perceber o quanto estão sem rumo. Eles recebem o toque. Alguns se esforçam para mudar, aprender a ver. Mas os que ficam se justificando por que não conseguiram, vão ficando para trás, vão sendo deixados pelos mais objetivos. Queixam-se de estar sozinhos, de só contarem com pessoas complicadas, mas não conseguem ver que só lhes sobraram os semelhantes.
Quem tem foco, quem sabe o que quer, quem buscou para saber o que quer, não se deixa envolver no pântano dos indecisos, dos que não querem resolver seus problemas. Egoísmo? Ou será dar um apoio, sinalizar para que os atrapalhados tenham consciência de seus defeitos? Ficar ao lado seria o mesmo que exercer a co-dependência, atitude de quem passa a mão na cabeça de um dependente químico. Seria endossar a apatia.
Seja qual for a idade por que se está passando, sempre é o momento de dar uma pequena parada e observar honestamente o que está fazendo com seu roteiro : seu caminho é dar voltas e repetir em círculos padrões passados? Seu foco está mantido e sempre ligado? Tem coragem de corrigir os desvios quando necessários para a finalidade maior a que se propõe?
Texto de 05/2010
Revista Prana

A MAGIA DO SETTING
Aplicando a neurociência à prática da psicanálise


É o conhecido que temos medo de largar. O conhecido é memória – memória a que nos apegamos. Mas a memória é apenas uma coisa mecânica – como os computadores o provam sobejamente. No morrer para o conhecido, aí está o começo da compreensão da morte, porque a mente então se torna fresca, nova, e nenhum medo existe.
Krishnamurti - A Mente sem Medo
- Ed. Cultrix

Se você tratar um indivíduo como ele é, ele permanecerá como tal. Mas, se você o tratar como se fosse o que deve e pode ser, ele se tornará o que deve e pode ser.
Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832 )



Quando se trata de algum problema no setting (o espaço em que se faz terapia), ao ouvir a própria voz relatando ao analista suas fantasias, suas angústias, a questão começa a perder o mistério, inicia-se uma transformação. Com o tempo, o problema se desmistifica.

As atuais pesquisas na área da neurociência podem comprovar, através do mapeamento do cérebro, o que em parte Freud intuiu em seus estudos, inaugurando o processo de o analisando narrar seus questionamentos na sessão. É nesse espaço que a mente vai reorganizar seus sistemas de crenças, provocando alterações nas conexões neuronais. Simultaneamente vão sendo enfraquecidos os sintomas trazidos como queixas.

Um dos trabalhos do analista: perceber o ritmo, o timing do analisando. Deixar que ele processe por si mesmo suas conclusões até ter assimilado internamente.

Conflitos de relacionamento na vida pessoal e profissional acontecem como fruto de experiências mal resolvidas, o sujeito vê nas pessoas com quem convive situações que sua memória emocional registrou no passado em suas conexões mentais.

Quando alguém acredita numa dificuldade que teme, de alguma forma está determinando um caminho em sua mente e em seu cérebro, reforçando suas vias neuronais naquele sentido.

Elaborados esses medos, raízes de pânico, ameaças e preconceitos, abre-se a oportunidade para a realização de sonhos até então inatingíveis.

Algumas pessoas já sofreram tantos fracassos que iniciam as tentativas sabendo que não vão ter bom resultado. Quando dizem com voz desanimada: Já sei como vai ser de novo, mas vou tentar... estão praticamente assinando sua desistência, não porque não queiram, mas porque desconhecem a importância de abrir novas vias, novas sinapses; novas direções de vida.

Como mudar um medo, uma crença? É difícil mudar um condicionamento, mas é bem possível deixar de alimentá-lo e iniciar um outro totalmente novo.
No livro:Liderança Tranquila - Não diga aos outros o que fazer, Ensine-os a pensar, de David Rock, Editora Campus, (2.006) lemos na página 25 :
Então, se você deseja mudar seus hábitos, basta liberar menos energia para os hábitos que o desagradam.

Simplificando muito: sempre que experimentamos uma atividade, tomamos uma decisão inovadora, estamos criando circuitos que não existiam até o momento, liberamos algum processo de mudança.

Ao longo das sessões, um novo percurso se desenha no cérebro e na vida do analisando.

No próprio setting, às vezes, acontece aquele momento mágico, um insight (uma percepção especial) que lhe revela associações de idéias, inaugura aspectos de antigas questões.

Mas o que minha experiência tem mostrado é que, dependendo do ponto em que está o processo da terapia, alguns se motivam e vão em frente atentos aos desafios, outros se assustam, criando defesas para enfrentar o caminho do desconforto que sempre causam as descobertas; os mais determinados começam lentamente, a partir daquele marco, a operar transformações em seu comportamento. A realidade interna e externa não seguem um mesmo ritmo. Por que essa dificuldade em algumas pessoas mais do que em outras? O sistema de conexões em algumas pode ter sido mais reforçado pelas experiências negativas recorrentes.Tornando-as mais desconfiadas ou mais lentas nas descobertas.


Na obra: O Cérebro nosso de cada dia, de Suzana Herculano-Houzel (8ª edição da Vieira & Lent), estudamos que a possibilidade de desenvolvermos nossas habilidades está na mais maravilhosa e característica propriedade do sistema nervoso: a capacidade de fazer novas combinações entre seus elementos, e de mudar a eficiência das conexões – as sinapses já existentes.

Essa informação nos estimula a acreditar que temos condição de reconstruir nossos destinos, através da mudança de hábitos. Quanto mais trabalhamos nossos pensamentos em favor da melhor qualidade de vida, mais nos tornamos capazes.

Abre-se um campo ilimitado. Deixando para sempre a atitude de quem se viu, um dia, repetindo uma rotina que parecia condenada ao sempre.
Texto Julho 2010 na Prana

MENSAGENS-CARTAS DE EMOÇÃO


“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso: Nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro... há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é a relação em si mesmo”. (Clarice Lispector)



Alguém anônimo me escreve; narra o quanto tem sofrido pela falta de um amor. Atribui essa falta, praticamente, ao destino que lhe roubou oportunidades. Ela realmente se deixou marcar por acontecimentos desencorajadores, parece desacreditar de tudo. Não lhe sobram forças para tentar novas possibilidades.

Será?... alguém que não espera mais nada do caminho, talvez não se animasse nem a escrever para uma estranha, apesar da identificação pelas palavras.

Lembro-me de várias histórias reais que conheço de pessoas que perseveraram muito, passaram por dificuldades imensas. Estavam, no início, tão frágeis que era preciso esperá-las ter ânimo para começar a falar. Falar doía. Recordar os motivos da tristeza, também. Esperei, sempre dando espaço para que as mágoas se apresentassem, uma a uma. Difícil não me contaminar com tanta angústia. Sabia que, como diz o pensamento acima, de Clarice Lispector, uma estrutura, mesmo sustentada por partes defeituosas, não deve ser abordada de qualquer maneira; tudo pode ruir. Mas prosseguiram, mesmo descontentes em vários momentos; encontraram soluções aparentes; decepcionaram-se novamente. Continuaram determinadas. E chegaram lá. Como é bom reconhecer aqueles que seguem adiante, apesar dos desacertos! Como é bom ver a recompensa de quem não se deixa vencer pelos primeiros, segundos... muitos fracassos!

Quem consegue dar um novo passo em busca de ajuda, mesmo experimentando insucessos, abre para si mesmo condição de analisar o que compõe cada situação perdida. Começará a reconhecer pontos comuns em todas elas. E terá oportunidade de criar uma nova sequência de acontecimentos. Um tempo presente melhor.

O que impede de tentar mais uma vez é o fato de a maioria de nós carregar sempre consigo um passado já vivido. Não ter perdoado ou o que aconteceu, ou o que lhe fizeram ou o que se permitiu sofrer.

O apego a memórias de culpa é um dos fatores mais atuantes a nos deprimir.

Quando o mundo externo se escurece para nós, voltamos os nossos olhares para dentro. E ali, por vezes, avistamos o segredo da existência.(1)

... estabelecer uma relação com a nossa depressão. Devemos como que colocá-la diante de nós, olhar para ela, questioná-la: O que quer me dizer? Que mensagem tem para mim? ... O que eu deixei de ver na minha vida? Onde eu me sobrecarreguei e passei dos meus limites? De que imagens próprias eu deveria me despedir? De que posturas internas (perfeccionismo, querer ser bem visto em toda parte, sentir-se obrigado a atender a todas as expectativas) eu deveria abdicar? (2)

Apesar de estar sem vontade, eu me levanto. Estou depressivo. Mas, mesmo assim, sou capaz de dar o primeiro passo para fora da cama...(3)

... Não se trata de reprimir a depressão com a vontade, mas de contatar a minha vontade através da depressão.(4)


A física quântica nos orienta para a possibilidade de substituir uma situação por outra, sob a influência de nosso pensamento. Escolhendo uma atitude de frequência vibratória que tende para o lado positivo, da alegria, como que fabricamos um clima para que se manifestem bons fatos. (5) Mas o que acontece com a maioria que se diz insatisfeita com sua vida é uma repetição de padrões que, mesmo incomodando, não conseguem superar e trocar. A manutenção de um determinismo que não se reconhece como agente do próprio destino.

Há casos em que banir uma determinada situação funcionaria mais ou menos como o pensamento inicial: causaria um desmoronamento. Mas sempre é possível aparar arestas, procurar amenizar desconfortos, impor uma vontade, contra a confortável omissão. Não virar a mesa não quer dizer, necessariamente, aceitar as coisas postas do jeito só escolhido pelos outros.

Existe, entre nossos pensamentos, um abordagem inconsciente que parece tomar a direção de fatos na vida que mais tarde nos parecem sequências programadas.

Como alcançar o coração de alguém que se diz desesperado? Que afirma desacreditar das várias terapias conhecidas? Que já não tem certeza de sua prática religiosa?

O excesso de buscas denuncia a inexistência de uma só terapia profunda que tivesse chegado ao inconsciente e alterado seu comportamento; a prova de que uma terapia teve efeito é a mudança do comportamento que gerava sofrimento para um estado de alma melhor, ações produtivas, autoconfiança.

O que alguns denominam de muitas tentativas não foram expectativas lançadas em direções perdidas. De alguma forma contam como bagagem para um recomeçar. Por que não tentar mais uma vez? Pode ser que o entendimento esteja mais próximo do que se imagina.




Notas 1-2-3 e 4 :
Do livro: O tratamento espiritual da depressão.
de Anselm Grün
Ed. Vozes,2009

(5)- Sugiro a leitura de : Criatividade Quântica
de Anit GoswamiEd. Aleph

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Psicanálise e Esoterismo


APRESENTAÇÃO DO LIVRO PSICANÁLISE E ESOTERISMO, QUE REÚNE TEXTOS PUBLICADOS NA COLUNA DE MESMO NOME NA REVISTA PRANA


Numa linguagem fácil de entender, Psicanálise e Esoterismo, da psicanalista Lilia Pandolfi, reúne textos, como diz Luiz Aberto Py em sua apresentação, quase terapêuticos. Buscando desmistificar e divulgar a prática da psicanálise, o livro, que é uma seleção da coluna de mesmo nome que a autora escreve desde 2003 para a Revista Prana, funciona como um espelho onde o leitor-analisando vai, passo a passo,se descobrindo, revelando a si mesmo a sua imagem.

O Esoterismo fica por conta da sua firme crença no poder transformador da palavra.Na magia do setting que transmuta o sintoma em autoaceitação.
Tudo através de um olhar cúmplice...

...Olhar que vem no lugar de tantos olhares que não se teve antes, presenças que faltaram, palavras não ditas, atenção que nos falhou, como escreve a autora.

Através das frases:
...
De que adianta fingir que está tudo bem e um dia explodir no desamparo da depressão?
...
Pior que parar e checar as atitudes é continuar seguindo, perdido, sem rumo.
...
As pessoas lúcidas em geral são muito críticas e esse não é o melhor meio de se combater a ansiedade.
...
... E, perdendo o outro, se perder.
...
Quando se funciona como sombra, há sempre o desespero de não saber onde está o sol.
...
Quem se importa com uma sombra? Uma sombra não ocupa espaço.

... a razão de empreender esta tentativa desafiadora de, trabalhando no campo da psicanálise, ter uma postura de quem tem fé.

... razões para acreditar nas duas linguagens : a do desvendar dos símbolos do inconsciente e a que me dava forças e certeza para prosseguir .


... Respeitar esse lugar no outro, por mais que o amemos – porque o amamos - é essencial. ...Por isso trabalhamos tanto o controle, na terapia. E seu correspondente, elemento essencial para a evolução da consciência, o apego.

...Enquanto formos reféns do ego, não contaremos com as soluções do amor.

...Cada descoberta, depois de um tempo, gera libertação.
Muita gente deixa de iniciar um projeto, um estudo, com a desculpa de que é tarde demais, que já passou da idade... Desde quando foi estabelecido
que existe um limite para se buscar a realização pessoal? Se existe
um, o limite é estar vivo. Ou melhor: considerar-se vivo... Se você só descobriu uma verdade aos setenta, oitenta, noventa anos, por que não segui-la?

Se a vida lhe oferece essa luz no caminho agora, deve ter suas razões. Vai ver que até aqui tudo foi uma preparação para você agora estar pronto para o novo horizonte.
...

Quantas amizades e relacionamentos perdidos na dedicação apressada, na cobrança imatura de provas de afeto!
Quando se impõe muitas condições, e o outro aceita, o que era amor fica muito estabelecido, acomoda-se... e sua parte melhor vai embora. Vira obrigação.
A maioria mal descobre o amor, e já começa a temer pela sua perda.
...

Tenho seguido um objetivo no meu trabalho clínico: dar prioridade à diferença, ao que cada um traz de só seu.
... uma oportunidade de se renascer para um olhar novo.
... A nossa diferença é a marca de Deus em nós, apontando para sermos mais na vida...
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