domingo, 5 de junho de 2011

Texto junho/11

A BUSCA DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE


“NÃO FINJA SER O QUE NÃO É
E NÃO EVITE SER QUEM REALMENTE É”


Para pensar: às vezes nos apegamos a atitudes que parecem nos salvar de ameaças, posições de proteção, escudos , mas a verdadeira segurança só aparece quando nos deparamos com a consciência de nossa fragilidade e a atravessamos. Só conquistaremos o autoconhecimento dos porões de nosso inconsciente ao entrarmos em contato com nossa realidade mais profunda. Então nos tornamos mais donos de nós mesmos.

O psicanalista, na minha opinião, deve ter, sempre,como primeira meta em mente, o conhecer da estrutura do paciente:o conjunto de leis que o movem e fazem dele a pessoa que ele é.

Apesar de sua função de ouvir as queixas e todos os sintomas que o analisando traz como causa de seus sofrimentos, o analista não pode perder o olhar para chegar ao inconsciente que ainda está encoberto na vida emocional do sujeito à sua frente.A partir do histórico de toda a sua vida, o terapeuta vai identificar os registros que o marcam. No linguajar comum: seus pontos fracos. Ao descobrir essa chave, vai-se abrir um manancial de significados.

Surgirão insights” ( visão interior) que descortinarão causas de confusões, razões para dificuldades e explicações para problemas que se repetem. Melhor ainda se surgirem sonhos reveladores . Enquanto essas fragilidades não são focadas e tornadas conscientes para quem as carrega desde a primeira infância, estará repetindo padrões não resolvidos em todas as relações. Um exemplo: a pessoa troca de namorado, marido, emprego, mas sempre chega um momento em que surge uma dificuldade que vai detonar a nova situação. Em lugar de identificar a causa da dificuldade, pula para outro objeto, porque não quer ver a parte que contribui para que essas situações se repitam. Esses problemas, ainda inconscientes para o analisando, saltarão aos olhos do analista. Ele ( o analista) vai ter uma dificuldade sempre presente: sabe que ocupa no setting
( espaço onde se realiza a análise) o lugar das pessoas com quem o analisando se relaciona. Sabe, adivinha , que , uma a uma, serão projetadas,nos diálogos, as fortes negativas, a resistência do paciente em concordar com sua contribuição para a própria infelicidade. “Como? Eu queria tanto aquele namoro? Como que contribuí para aquele fim?” “Como você me diz que sabotei a terapia do meu marido, se eu queria tanto que ele melhorasse? Que forma injusta de ver!” Aí,se ele tiver muita vontade, muita raça para tornar-se uma pessoa mais bem resolvida, apesar da raiva surgida, vai permanecer no tratamento. Mas, se o orgulho ou a vontade de fugir indefinidamente dos seus problemas o mantiver preso às deficiências, o medo de descobrir mais sobre seus próprios impedimentos for mais forte, ele fugirá. E se manterá repetindo velhos defeitos, perdendo causas que poderia ganhar, até que a necessidade de se resolver seja mais forte, o sofrimento exija uma solução. E volte a se deparar com seu eu mais autêntico.


...
A missão da terapia é justamente a identificação, primeiro, da dor do outro, seguida da determinação intensa de buscar as causas e possibilitar condições para encontrar juntos a solução, mantendo uma postura profissional que deixe claro para o paciente que ele deve agir e reagir por conta própria. Superando a angústia que nos pode invadir , essa percepção do outro em todos os seus graus de sentir, alimenta, no terapeuta verdadeiramente tocado pelo amor à sua missão, uma constante e crescente decisão de estudar sempre e muito, tornando-se cada vez mais capaz de atender e ajudar. Precisa, ainda, trabalhar a sua determinação de sinalizar as causas que levaram seu paciente a se manter nas condições de sofrimento, como é o caso do que vive em isolamento e percebe a dificuldade de reverter a situação. Esse isolamento que provavelmente o trouxe para a depressão. Revendo os pontos-- momentos-chave em que foi se entregando, foi desistindo, julgando severamente aqueles que não o entenderam.

Sabendo, inclusive, que, nesse empenho de mostrar as dificuldades alheias, se sujeita à reação negativa e tentativas de crítica tentando até desvalorizar o seu trabalho, o terapeuta também não pode perder de vista sua atitude de ver na agressão emocional do paciente um sintoma e não um ataque à sua pessoa,e que, no fundo , por trás da raiva, vibra uma forte dor que precisa ser encontrada e tratada.

Na condição de psicanalistas, estamos impedidos de chorar junto, demonstrar o quanto nos comove a situação emocional daqueles que atendemos, inclusive porque sabemos que não é assim que se atua e resolve numa análise produtiva, mas nada impede de o nosso sentido maior que se expressa pela postura, que se esconde atrás da pele e do olhar, saia, num gesto invisível aos olhos humanos, e venha socorrê-lo a cada expressão, a cada palavra ouvida, a cada mão estendida levando, junto, o coração.
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