dez/12:ANÁLISE, ARTE DO
ENCONTRO
Terminei o texto anterior
citando o livre arbítrio, só atingido quando são vencidas as amarras de um
mundo interior criado sob a sombra de bloqueios e resistências. Liberdade: fazer
o que realmente se quer, resistindo à pressão do desejo do outro, seja quem
for, sobre nossas ações e nossa vida. Isso exige o conhecimento de si mesmo.
A necessidade de
ser ouvido vem junto com a de ser amado. Ela aparece bem no início do tratamento.
Há casos que começam a se resolver a partir da atenção recebida. E uma
qualidade é fundamental no analista, neste momento, durante e sempre: a
paciência. Paciência para ouvir, para esperar cada revelação. É preciso
acompanhar o processo da dor das descobertas; senti-la chegando, impregnando o
espaço, assimilando-se com a fala.
Dispor-se a ouvir e ser ouvido. Significando respeito,
entendimento, gerando diálogo. Diálogo que faltou ao longo de toda uma vida. No
estado de solidão, os tecidos do olhar entristecidos, vibra, fechado, um medo
de se expor, um medo de não ser aceito.
Mas no ir e vir de ideias, atitudes, gestos, acontece o que se pode
chamar de encontro.
Encontro esperado; que só existe quando as mentes de duas
pessoas trocam o que pensam. E cada um sabe aguardar o que o outro tem para
dizer. Uma terapia prepara alguém para se tornar capaz do encontro, alguém
capaz de se revelar e ouvir sentimentos.
Minha percepção não ultrapassa o nível dos meus afetos
individuais: “nós vemos as coisas não
como elas são, mas como nós somos” –
afirmava o filósofo Kant .
A terapia, uma vez iniciada, vai colocar as questões que
há muito se faz:
- Que é o que eu vejo? Como sou para os outros? O início
de uma análise provoca um estado de suspensão da realidade emocional no paciente, estado oposto ao esperado grau de aparente segurança
valorizado nas carreiras profissionais.
O próprio tratamento, se por um lado desequilibra parcial
e temporariamente, por outro, ao colocar
o iniciado em cena no centro das
atenções do setting, enfocando o que ele sente, e não o que deve
sentir, vai delicadamente tecendo uma trama–base para uma autoestima saudável,
capaz de dar conta do espaço quebradiço
dos “ protegidos “ pelo falso-forte-ego. A passagem dessa substituição de
um eu precariamente estruturado, desfazendo-se pouco a pouco, vai servir
de ponte para o reconhecimento do seu verdadeiro eu e da segurança do
autoconhecimento gradualmente conquistada.
Os reflexos frustrados, perdidos e difusos da fase inicial
de uma infância incompletamente atendida serão substituídos por ferramentas bem
mais resistentes aos desafios que as futuras experiências vão
apresentar.
“O
reconhecimento de outrem, a desidealização da imagem parental significariam
crescimento” (1).
Respondendo
à dificuldade desse crescimento, desse amadurecimento, surge a busca de ”reestruturação do ego“ . (2)
O
crescimento atingido vai possibilitar o encontro mais completo do ser consigo
mesmo e com aqueles com quem se relaciona.
É a partir daí que o encontro é possível.

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