COSTURANDO A VIDA
Um dos livros que me marcaram muito: “O Tempo Entre Costuras”, de María Dueñas.
É uma obra que trata de superação. Ou resiliência, a capacidade de crescer na adversidade. Uma mulher que parte de uma realidade ingênua, sem recursos, sem cultura, a única coisa que sabia fazer bem era costurar. Ainda não tinha aprendido nem a valorizar seu próprio trabalho quando se vê lançada a um mundo ameaçador. Não se conhecia, não tinha provado o sabor da coragem. É explorada, roubada, mas não se dá por vencida. Entre as frases significativas que marcam os retalhos do seu caminho, escolhi:
“...e eu me deixava levar, transformada em sua sombra, em uma presença quase sempre muda...”
“Um dos efeitos da paixão louca e obcecada é que anula os sentidos para perceber o que acontece à sua volta...”
“Deixava para trás um passado complexo e, como em uma premonição, à frente se abria uma magnitude de espaço nu que o tempo se encarregaria de ir preenchendo. Preenchendo com quê? com coisas e afetos. com momentos, sensações e pessoas; enchendo-o de vida.”
Poucas vezes li a definição de vida com tanta leveza e sabedoria.
“Mas errei, como quase sempre se erra quando construímos concepções com base no frágil apoio...”
“Deixei para trás uma camisola alheia e a marca de meu corpo nos lençóis. O medo não quis ficar, foi comigo.”
A estória toda nos mostra que, quando se decide com determinação, os fatos ajudam .
A protagonista revela, diante de todas as dificuldades, capacidade de adaptação rápida a situações desafiadoras, o que indica alto controle das emoções.
Em psicanálise, quando se observa um perfil, pode-se estabelecer a diferença de quem passa uma imagem mentirosa porque acredita nela e de quem finge; o saber que está fingindo é mais sadio emocionalmente que o misturar-se às próprias fantasias.
A superação atravessa o texto em vários níveis: quando ela cria um personagem que serve de um falso eu para se defender em tempo de revolução e guerra; quando ela sabe que pode se desfazer dele e só usar quando está em perigo de vida; quando ela tem plena consciência de que não gostaria de fingir, que só mente o necessário para ajudar seu país e a si mesma .
Ao crescer, ao ser ela mesma entre os amigos, ao ter que representar para sobreviver, em todos os tempos assiste-se às mudanças sofridas em seu interior, passando de uma moça frágil e melancólica, joguete nas mãos de manipuladores, para ocupar o espaço de dona do seu destino. De sombra passa a viver com luz própria, iluminando o próprio caminho à frente.
“Já era hora de exigir ver a luz.”
Reunir os cacos, os retalhos do sofrimento... a vida pode ser uma colagem artística dos pedaços da dor.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
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