terça-feira, 20 de julho de 2010

Texto para agosto 2010
Revista Prana

PSICANÁLISE E ESOTERISMO

OS QUE CONSEGUEM E OS QUE SOBRAM

No texto de 4 de julho na Revista de Domingo do Globo, Martha Medeiros enfocou magistralmente um tema que aponta para um dos grandes empecilhos do desenvolvimento de muitas vidas: a existência de pessoas que se mantêm perdidas em seu caminho – os que empatam e os que buscam um foco. Comparando com o futebol, lembrou do desempenho de Pelé, que sabia como pegar uma bola e levar direto à rede. Fala da alma de artilheiro, que chega ao campo perguntando logo onde é o gol.
Observa como uma grande parte vive a vida chutando para todos os lados, contando com a sorte para empurrá-las. Como desperdiçam energia!

Copiando na íntegra um parágrafo:
“Quase invejo quem tem tempo a perder: sinal de que é alguém irritantemente jovem, que ainda não se deu conta da ligeireza da vida. Já os veteranos não podem se dar ao luxo de acordar tarde, e, no caso, “ acordar tarde” não significa dormir até o meio-dia: significa dormir no ponto, comer mosca. Não dá. Depois de uma certa idade, é preciso ser mais atento e produtivo. “

Penso naquelas pessoas que vivem sofrendo um problema e nada fazem para mudar. Sinto por todos que adiam suas soluções, achando que vão dar conta. E o tempo passa. Os anos passam. A vida passa.
Os que buscam e se mantêm no foco – os que realizam – e os que se perdem e atrapalham. Mas ainda existe um outro tipo: os que se deixam atrapalhar. Os que são coniventes e culpam o atrapalhador pelo seu insucesso.
Convivemos algumas ou muitas vezes com quem vive enrolando suas decisões. Podemos, se consultados, até ajudá-los a perceber o quanto estão sem rumo. Eles recebem o toque. Alguns se esforçam para mudar, aprender a ver. Mas os que ficam se justificando por que não conseguiram, vão ficando para trás, vão sendo deixados pelos mais objetivos. Queixam-se de estar sozinhos, de só contarem com pessoas complicadas, mas não conseguem ver que só lhes sobraram os semelhantes.
Quem tem foco, quem sabe o que quer, quem buscou para saber o que quer, não se deixa envolver no pântano dos indecisos, dos que não querem resolver seus problemas. Egoísmo? Ou será dar um apoio, sinalizar para que os atrapalhados tenham consciência de seus defeitos? Ficar ao lado seria o mesmo que exercer a co-dependência, atitude de quem passa a mão na cabeça de um dependente químico. Seria endossar a apatia.
Seja qual for a idade por que se está passando, sempre é o momento de dar uma pequena parada e observar honestamente o que está fazendo com seu roteiro : seu caminho é dar voltas e repetir em círculos padrões passados? Seu foco está mantido e sempre ligado? Tem coragem de corrigir os desvios quando necessários para a finalidade maior a que se propõe?
Texto de 05/2010
Revista Prana

A MAGIA DO SETTING
Aplicando a neurociência à prática da psicanálise


É o conhecido que temos medo de largar. O conhecido é memória – memória a que nos apegamos. Mas a memória é apenas uma coisa mecânica – como os computadores o provam sobejamente. No morrer para o conhecido, aí está o começo da compreensão da morte, porque a mente então se torna fresca, nova, e nenhum medo existe.
Krishnamurti - A Mente sem Medo
- Ed. Cultrix

Se você tratar um indivíduo como ele é, ele permanecerá como tal. Mas, se você o tratar como se fosse o que deve e pode ser, ele se tornará o que deve e pode ser.
Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832 )



Quando se trata de algum problema no setting (o espaço em que se faz terapia), ao ouvir a própria voz relatando ao analista suas fantasias, suas angústias, a questão começa a perder o mistério, inicia-se uma transformação. Com o tempo, o problema se desmistifica.

As atuais pesquisas na área da neurociência podem comprovar, através do mapeamento do cérebro, o que em parte Freud intuiu em seus estudos, inaugurando o processo de o analisando narrar seus questionamentos na sessão. É nesse espaço que a mente vai reorganizar seus sistemas de crenças, provocando alterações nas conexões neuronais. Simultaneamente vão sendo enfraquecidos os sintomas trazidos como queixas.

Um dos trabalhos do analista: perceber o ritmo, o timing do analisando. Deixar que ele processe por si mesmo suas conclusões até ter assimilado internamente.

Conflitos de relacionamento na vida pessoal e profissional acontecem como fruto de experiências mal resolvidas, o sujeito vê nas pessoas com quem convive situações que sua memória emocional registrou no passado em suas conexões mentais.

Quando alguém acredita numa dificuldade que teme, de alguma forma está determinando um caminho em sua mente e em seu cérebro, reforçando suas vias neuronais naquele sentido.

Elaborados esses medos, raízes de pânico, ameaças e preconceitos, abre-se a oportunidade para a realização de sonhos até então inatingíveis.

Algumas pessoas já sofreram tantos fracassos que iniciam as tentativas sabendo que não vão ter bom resultado. Quando dizem com voz desanimada: Já sei como vai ser de novo, mas vou tentar... estão praticamente assinando sua desistência, não porque não queiram, mas porque desconhecem a importância de abrir novas vias, novas sinapses; novas direções de vida.

Como mudar um medo, uma crença? É difícil mudar um condicionamento, mas é bem possível deixar de alimentá-lo e iniciar um outro totalmente novo.
No livro:Liderança Tranquila - Não diga aos outros o que fazer, Ensine-os a pensar, de David Rock, Editora Campus, (2.006) lemos na página 25 :
Então, se você deseja mudar seus hábitos, basta liberar menos energia para os hábitos que o desagradam.

Simplificando muito: sempre que experimentamos uma atividade, tomamos uma decisão inovadora, estamos criando circuitos que não existiam até o momento, liberamos algum processo de mudança.

Ao longo das sessões, um novo percurso se desenha no cérebro e na vida do analisando.

No próprio setting, às vezes, acontece aquele momento mágico, um insight (uma percepção especial) que lhe revela associações de idéias, inaugura aspectos de antigas questões.

Mas o que minha experiência tem mostrado é que, dependendo do ponto em que está o processo da terapia, alguns se motivam e vão em frente atentos aos desafios, outros se assustam, criando defesas para enfrentar o caminho do desconforto que sempre causam as descobertas; os mais determinados começam lentamente, a partir daquele marco, a operar transformações em seu comportamento. A realidade interna e externa não seguem um mesmo ritmo. Por que essa dificuldade em algumas pessoas mais do que em outras? O sistema de conexões em algumas pode ter sido mais reforçado pelas experiências negativas recorrentes.Tornando-as mais desconfiadas ou mais lentas nas descobertas.


Na obra: O Cérebro nosso de cada dia, de Suzana Herculano-Houzel (8ª edição da Vieira & Lent), estudamos que a possibilidade de desenvolvermos nossas habilidades está na mais maravilhosa e característica propriedade do sistema nervoso: a capacidade de fazer novas combinações entre seus elementos, e de mudar a eficiência das conexões – as sinapses já existentes.

Essa informação nos estimula a acreditar que temos condição de reconstruir nossos destinos, através da mudança de hábitos. Quanto mais trabalhamos nossos pensamentos em favor da melhor qualidade de vida, mais nos tornamos capazes.

Abre-se um campo ilimitado. Deixando para sempre a atitude de quem se viu, um dia, repetindo uma rotina que parecia condenada ao sempre.
Texto Julho 2010 na Prana

MENSAGENS-CARTAS DE EMOÇÃO


“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso: Nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro... há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é a relação em si mesmo”. (Clarice Lispector)



Alguém anônimo me escreve; narra o quanto tem sofrido pela falta de um amor. Atribui essa falta, praticamente, ao destino que lhe roubou oportunidades. Ela realmente se deixou marcar por acontecimentos desencorajadores, parece desacreditar de tudo. Não lhe sobram forças para tentar novas possibilidades.

Será?... alguém que não espera mais nada do caminho, talvez não se animasse nem a escrever para uma estranha, apesar da identificação pelas palavras.

Lembro-me de várias histórias reais que conheço de pessoas que perseveraram muito, passaram por dificuldades imensas. Estavam, no início, tão frágeis que era preciso esperá-las ter ânimo para começar a falar. Falar doía. Recordar os motivos da tristeza, também. Esperei, sempre dando espaço para que as mágoas se apresentassem, uma a uma. Difícil não me contaminar com tanta angústia. Sabia que, como diz o pensamento acima, de Clarice Lispector, uma estrutura, mesmo sustentada por partes defeituosas, não deve ser abordada de qualquer maneira; tudo pode ruir. Mas prosseguiram, mesmo descontentes em vários momentos; encontraram soluções aparentes; decepcionaram-se novamente. Continuaram determinadas. E chegaram lá. Como é bom reconhecer aqueles que seguem adiante, apesar dos desacertos! Como é bom ver a recompensa de quem não se deixa vencer pelos primeiros, segundos... muitos fracassos!

Quem consegue dar um novo passo em busca de ajuda, mesmo experimentando insucessos, abre para si mesmo condição de analisar o que compõe cada situação perdida. Começará a reconhecer pontos comuns em todas elas. E terá oportunidade de criar uma nova sequência de acontecimentos. Um tempo presente melhor.

O que impede de tentar mais uma vez é o fato de a maioria de nós carregar sempre consigo um passado já vivido. Não ter perdoado ou o que aconteceu, ou o que lhe fizeram ou o que se permitiu sofrer.

O apego a memórias de culpa é um dos fatores mais atuantes a nos deprimir.

Quando o mundo externo se escurece para nós, voltamos os nossos olhares para dentro. E ali, por vezes, avistamos o segredo da existência.(1)

... estabelecer uma relação com a nossa depressão. Devemos como que colocá-la diante de nós, olhar para ela, questioná-la: O que quer me dizer? Que mensagem tem para mim? ... O que eu deixei de ver na minha vida? Onde eu me sobrecarreguei e passei dos meus limites? De que imagens próprias eu deveria me despedir? De que posturas internas (perfeccionismo, querer ser bem visto em toda parte, sentir-se obrigado a atender a todas as expectativas) eu deveria abdicar? (2)

Apesar de estar sem vontade, eu me levanto. Estou depressivo. Mas, mesmo assim, sou capaz de dar o primeiro passo para fora da cama...(3)

... Não se trata de reprimir a depressão com a vontade, mas de contatar a minha vontade através da depressão.(4)


A física quântica nos orienta para a possibilidade de substituir uma situação por outra, sob a influência de nosso pensamento. Escolhendo uma atitude de frequência vibratória que tende para o lado positivo, da alegria, como que fabricamos um clima para que se manifestem bons fatos. (5) Mas o que acontece com a maioria que se diz insatisfeita com sua vida é uma repetição de padrões que, mesmo incomodando, não conseguem superar e trocar. A manutenção de um determinismo que não se reconhece como agente do próprio destino.

Há casos em que banir uma determinada situação funcionaria mais ou menos como o pensamento inicial: causaria um desmoronamento. Mas sempre é possível aparar arestas, procurar amenizar desconfortos, impor uma vontade, contra a confortável omissão. Não virar a mesa não quer dizer, necessariamente, aceitar as coisas postas do jeito só escolhido pelos outros.

Existe, entre nossos pensamentos, um abordagem inconsciente que parece tomar a direção de fatos na vida que mais tarde nos parecem sequências programadas.

Como alcançar o coração de alguém que se diz desesperado? Que afirma desacreditar das várias terapias conhecidas? Que já não tem certeza de sua prática religiosa?

O excesso de buscas denuncia a inexistência de uma só terapia profunda que tivesse chegado ao inconsciente e alterado seu comportamento; a prova de que uma terapia teve efeito é a mudança do comportamento que gerava sofrimento para um estado de alma melhor, ações produtivas, autoconfiança.

O que alguns denominam de muitas tentativas não foram expectativas lançadas em direções perdidas. De alguma forma contam como bagagem para um recomeçar. Por que não tentar mais uma vez? Pode ser que o entendimento esteja mais próximo do que se imagina.




Notas 1-2-3 e 4 :
Do livro: O tratamento espiritual da depressão.
de Anselm Grün
Ed. Vozes,2009

(5)- Sugiro a leitura de : Criatividade Quântica
de Anit GoswamiEd. Aleph