sábado, 22 de dezembro de 2012


Janeiro 2013         Sinto-me nascido a cada momento
 para a eterna novidade do mundo.
Alberto Caeiro


ACEITANDO O DIFERENTE E SE TORNANDO ESPECIAL

Uma das condições atingidas pelo trabalho psicanalítico  acontece quando o analisando começa a perceber que o mundo não reflete sua realidade, que as pessoas  em volta não são prolongamentos de sua limitada existência. E os paradigmas que o norteiam não são necessariamente a melhor forma de se orientar.

...Que os que existem fora dele não precisam repetir o que conhece como modelo.
Talvez esse seja um dos primeiros degraus que separam a mente infantil do amadurecimento.

Uma admiração encoberta por estranheza ocupa alguns pensamentos ao se depararem com o inexplicado.  As qualidades alheias inquietam, por provocarem  dificuldade em entendê-las.
Como não entendem, não sabem como lidar. Como não sabem como lidar, agridem. Relacionar-se com o diferente instiga, é um desafio à vaidade e à insegurança. Quanto mais audacioso, mais instigante e desafiador.
O observador inadvertido, diante dos que se destacam por diferentes, se pergunta:
- Como ousam ser tão autênticos? Que força os impele a  seguir tão diretamente seus sentimentos, correrem riscos em função do que  desejam ou acreditam?

Pessoas que seguem outros valores que não os seus. os que não  conseguem entender,  criticam.

Mas aquele que tem coragem de mergulhar fundo na angústia            até chegar a uma relativa  tranquilidade, entrando em contato com as próprias  emoções, está se embrenhando pelos lados obscuros da  mente, tocando  os pontos cegos; e,  quando conseguir aceitar o desconhecido que vive no seu mundo interior, vai iniciar                      uma pequena brecha para a aceitação do outro, e do diferente que existe dentro do outro. Vai se preparar para o desconhecido.  Empreender a arte do crescimento. E só após esse exercício, conseguir conviver  (=  Con- viver ).

Disse o grande filósofo e mestre Paramahansa Yogananda:
Receberei de bom grado todas as provas, pois sei que em mim existem a inteligência para compreender e o poder de superá-las.




Continuamos no próximo texto.


ANÁLISE, ARTE DO ENCONTRO


Terminei o texto anterior citando o livre arbítrio, só atingido quando são vencidas as amarras de um mundo interior criado sob a sombra de bloqueios e resistências. Liberdade: fazer o que realmente se quer, resistindo à pressão do desejo do outro, seja quem for, sobre nossas ações e nossa vida.   Isso exige o conhecimento de si mesmo.

            A necessidade de ser ouvido vem junto com a de ser amado. Ela aparece bem no início do tratamento. Há casos que começam a se resolver a partir da atenção recebida. E uma qualidade é fundamental no analista, neste momento, durante e sempre: a paciência. Paciência para ouvir, para esperar cada revelação. É preciso acompanhar o processo da dor das descobertas; senti-la chegando, impregnando o espaço, assimilando-se com a fala.

            Dispor-se a ouvir e ser ouvido. Significando respeito, entendimento, gerando diálogo. Diálogo que faltou ao longo de toda uma vida. No estado de solidão, os tecidos do olhar entristecidos, vibra, fechado, um medo de se expor, um medo de não ser aceito.  Mas no ir e vir de ideias, atitudes, gestos, acontece o que se pode chamar de encontro.
           
            Encontro esperado; que só existe quando as mentes de duas pessoas trocam o que pensam. E cada um sabe aguardar o que o outro tem para dizer. Uma terapia prepara alguém para se tornar capaz do encontro, alguém capaz de se revelar e ouvir sentimentos.

            Minha percepção não ultrapassa o nível dos meus afetos individuais: “nós vemos as coisas não como elas são, mas como nós somos” –  afirmava o filósofo Kant .
           
            A terapia, uma vez iniciada, vai colocar as questões que há muito se faz:
            - Que é o que eu vejo? Como sou para os outros? O início de uma análise provoca um estado de suspensão da realidade emocional no  paciente, estado  oposto ao esperado grau de aparente segurança valorizado nas carreiras profissionais.


            O próprio tratamento, se por um lado desequilibra parcial e temporariamente, por outro, ao  colocar o iniciado  em cena no centro das atenções do setting, enfocando o que ele sente, e não o que deve sentir, vai delicadamente tecendo uma trama–base para uma autoestima saudável, capaz de dar conta do espaço  quebradiço dos “ protegidos “ pelo falso-forte-ego. A passagem dessa substituição de um eu precariamente estruturado, desfazendo-se pouco a pouco, vai servir de ponte para o reconhecimento do seu verdadeiro eu e da segurança do autoconhecimento gradualmente conquistada.

            Os reflexos frustrados, perdidos e difusos da fase inicial de uma infância incompletamente atendida serão substituídos por ferramentas bem mais resistentes  aos desafios que  as futuras experiências  vão  apresentar.


              “O reconhecimento de outrem, a desidealização da imagem parental significariam crescimento” (1).
              Respondendo à dificuldade desse crescimento, desse amadurecimento, surge a busca de ”reestruturação do ego“ . (2)


              O crescimento atingido vai possibilitar o encontro mais completo do ser consigo mesmo e com aqueles com quem se relaciona. 

              É a partir daí que o encontro é possível.

dez/12:ANÁLISE, ARTE DO ENCONTRO


Terminei o texto anterior citando o livre arbítrio, só atingido quando são vencidas as amarras de um mundo interior criado sob a sombra de bloqueios e resistências. Liberdade: fazer o que realmente se quer, resistindo à pressão do desejo do outro, seja quem for, sobre nossas ações e nossa vida.   Isso exige o conhecimento de si mesmo.

            A necessidade de ser ouvido vem junto com a de ser amado. Ela aparece bem no início do tratamento. Há casos que começam a se resolver a partir da atenção recebida. E uma qualidade é fundamental no analista, neste momento, durante e sempre: a paciência. Paciência para ouvir, para esperar cada revelação. É preciso acompanhar o processo da dor das descobertas; senti-la chegando, impregnando o espaço, assimilando-se com a fala.

            Dispor-se a ouvir e ser ouvido. Significando respeito, entendimento, gerando diálogo. Diálogo que faltou ao longo de toda uma vida. No estado de solidão, os tecidos do olhar entristecidos, vibra, fechado, um medo de se expor, um medo de não ser aceito.  Mas no ir e vir de ideias, atitudes, gestos, acontece o que se pode chamar de encontro.
           
            Encontro esperado; que só existe quando as mentes de duas pessoas trocam o que pensam. E cada um sabe aguardar o que o outro tem para dizer. Uma terapia prepara alguém para se tornar capaz do encontro, alguém capaz de se revelar e ouvir sentimentos.

            Minha percepção não ultrapassa o nível dos meus afetos individuais: “nós vemos as coisas não como elas são, mas como nós somos” –  afirmava o filósofo Kant .
           
            A terapia, uma vez iniciada, vai colocar as questões que há muito se faz:
            - Que é o que eu vejo? Como sou para os outros? O início de uma análise provoca um estado de suspensão da realidade emocional no  paciente, estado  oposto ao esperado grau de aparente segurança valorizado nas carreiras profissionais.


            O próprio tratamento, se por um lado desequilibra parcial e temporariamente, por outro, ao  colocar o iniciado  em cena no centro das atenções do setting, enfocando o que ele sente, e não o que deve sentir, vai delicadamente tecendo uma trama–base para uma autoestima saudável, capaz de dar conta do espaço  quebradiço dos “ protegidos “ pelo falso-forte-ego. A passagem dessa substituição de um eu precariamente estruturado, desfazendo-se pouco a pouco, vai servir de ponte para o reconhecimento do seu verdadeiro eu e da segurança do autoconhecimento gradualmente conquistada.

            Os reflexos frustrados, perdidos e difusos da fase inicial de uma infância incompletamente atendida serão substituídos por ferramentas bem mais resistentes  aos desafios que  as futuras experiências  vão  apresentar.


              “O reconhecimento de outrem, a desidealização da imagem parental significariam crescimento” (1).
              Respondendo à dificuldade desse crescimento, desse amadurecimento, surge a busca de ”reestruturação do ego“ . (2)


              O crescimento atingido vai possibilitar o encontro mais completo do ser consigo mesmo e com aqueles com quem se relaciona. 

              É a partir daí que o encontro é possível.