Retomando
o tema de se superar e reinventar-se, lembro que, no final do texto (de maio),
afirmei não existirem receitas – além de seguir o impulso nascido do mergulho
no mundo interior. O que quis dizer, depois de falar em vencer os bloqueios,
quebrar as resistências, foi que cada um, já preparado, terá condições de
escolher o seu caminho; e liberdade para decidir o seu passo. O que quero dizer
com “já preparado”?
A
escolha de uma disciplina será sempre necessária; mas diferente de obedecer a
regras fixas iguais para todos.
Seja qual for a forma que escolheremos para
seguir, ela vem do resultado de uma preparação, da repetição de uma prática.
E que caminhos são esses que nos levam em direção à realização?
Além
do sempre enfocado (por mim) trabalho da psicanálise, do reconhecimento de que nossas
ações e emoções são geradas num campo desconhecido, o inconsciente, que precisa
ser pouco a pouco resgatado, reconhecemos a prática da meditação e da oração; enquanto as sessões de análise se
sucedem, costurando sequências que
conduzem a uma tomada de consciência maior, na meditação, se sistemática,
são ativados nossos centros vitais, promovendo um estado de harmonia com o nosso
mundo interior e com tudo o que nos cerca. E também a oração, quando contínua,
produz no praticante uma corrente de união com a fonte de sua busca.
Um dia, há muito tempo, cheguei à sessão de
análise disposta a narrar o quanto havia vencido os obstáculos... Era a consciência de sair do fundo do poço e
ganhar o horizonte. E foi justamente ao ouvir minha voz se expressando, que
aquela sensação me tomou por completo: a vertigem da liberdade: o prazer tonto de poder caminhar sem peias, sem
queixas, sem apoios de explicações.
Estava para me lançar, mas a percepção de que sempre haverá um próximo
desafio me desarticulava. Alguma coisa dentro de mim deu as mãos para mim
mesma. Mas não estava pronta. Sabia que, enquanto passageira da vida, nunca
estaria inteiramente pronta. Sempre a caminho.
