quarta-feira, 14 de novembro de 2012


TEXTO OUTUBRO/12:A BUSCA DO CONHECIMENTO
ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - III

O TEMPO DA TERAPIA:

         “– Quando nos chega um analisando novo e pergunta: quanto tempo você acha que vai durar o meu tratamento?...”,

lembro-me de que atribuem a Freud a resposta,  citando um hábito indígena:  “–  Comece a caminhar, e vamos ver o seu ritmo...

         Mês passado, iniciei o texto com uma citação:

“Tudo nos falta quando nos faltamos.”
De Goethe.

         Cito, agora, uma frase que cria uma linha de ligação com aquela:


“– Não se pode acrescentar uma gota de água a uma taça já cheia.” De Tolstoi, profundo conhecedor da alma humana.

        
Quando partimos da angustiante sensação da falta e atingimos um grau suficiente de autoconhecimento, de preenchimento, vivendo bem “resolvidos” nas principais questões, quando nos sabemos aptos para enfrentar os problemas que surgem como desafios e não como castigos da vida, tragédias que” só acontecem conosco”, podemos afirmar que atingimos uma condição já satisfatória. Mas o objetivo da terapia não é apenas remover incômodos, retirar dificuldades, nos tornar mais fortes.

         QUEREMOS MAIS DA VIDA!

         Como na estória do elefante acorrentado, que desde pequeno tentara se libertar, atado a uma estaca desde recém-nascido, e se acomodara à ideia de não ter forças para ousar mais tarde, muitos se conservam presos a registros aceitos sob o comando de “não posso, não devo, nunca poderei!”

Aos poucos, como numa escultura, percebemos que, por detrás de tantos disfarces, (como dizia Michelangelo diante da pedra bruta), existe um anjo a ser descoberto lá dentro! Aos próprios olhos, o sujeito portador do problema não consegue se ver vitorioso, desvencilhado das amarras que o impedem de seguir.

         O trabalho prático  começa a funcionar através do contato que acontece nas entrevistas entre o  terapeuta e o paciente. As comunicações vão tornando evidente o que  precisa se enxergado, vão surgindo, através da “livre associação” das idéias que traz, algumas pistas das “pedras” a que se acostumou no seu percurso. Isso é “elaboração”.
        
         O que está escondido no inconsciente do analisando, suas memórias, algumas observações entre suas falas distraídas, suas queixas, suas regras na maneira de levar a vida, e entre  esse material, para o analista  atento, as atitudes  que o traíram, os hábitos que se estabeleceram, deixando-o repetir, cegamente, atitudes que, aos poucos, o foram adoecendo, fazendo-o perder o que não perderia,  se tivesse percebido antes. O terapeuta vai recebendo as informações na “escuta psicanalítica”, guardando em sua memória para no momento adequado dar um “ toque”, que se chama em psicanálise “ “pontuar”. Lembrando, se preciso, o compromisso
entre o terapeuta e o cliente de passar por momentos de dificuldades, e nenhum dos dois abandonar o barco.

         Quando surgem fases que encaminham o trabalho justamente para ir mais fundo e assim descobrirem o que está atrapalhando para  levar melhor sua vida, surge o fenômeno (que vem do inconsciente) chamado “ Resistência”. É como numa escavação, que se encontra uma camada  mais dura e se vai, com cuidado, removendo. Ou, como quando se inicia uma dieta, um curso, um namoro; qualquer coisa que represente melhorar sua vida, também pode ocorrer esse fenômeno. É a antiga memória de viver amarrado ao “não posso, não consigo”. As resistências precisam ser corajosamente enfrentadas para que ele vá vencendo, passo a passo, com dificuldade, mas determinação.
        
         Quando a nossa mente se recusa a enfrentar um assunto, ela promove algum tipo de fuga, que pode ser um esquecimento, uma doença, uma racionalização (uma explicação razoável para a pessoa não comparecer, como, por exemplo: “não tenho tempo, não tenho dinheiro “...).

         Às vezes, a pessoa melhora um pouco e acha que já conseguiu muito: no fundo, é a velha sensação de que não merece mais, de que está bom, assim. A nossa natureza tende, sempre, a se acomodar. É preciso atravessar a resistência.
E, quando conseguimos superar as primeiras e seguintes barreiras, ficaremos surpresos e felizes ao nos acostumarmos aos novos padrões: os de vivermos bem, em paz conosco, em harmonia com o que nos cerca,  com a capacidade de melhorar tudo com o que nos comunicamos.


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