TEXTO OUTUBRO/12:A BUSCA DO CONHECIMENTO
ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - III
O TEMPO DA TERAPIA:
“– Quando nos
chega um analisando novo e pergunta: quanto tempo você acha que vai durar o meu
tratamento?...”,
lembro-me de que atribuem a Freud a resposta, citando um hábito indígena: “–
Comece a caminhar, e vamos ver o seu ritmo...
Mês passado,
iniciei o texto com uma citação:
“Tudo nos falta quando nos faltamos.”
De Goethe.
Cito, agora,
uma frase que cria uma linha de ligação com aquela:
“– Não se pode acrescentar uma gota de água a uma taça já
cheia.” De Tolstoi, profundo conhecedor da alma humana.
Quando partimos da angustiante sensação da falta e atingimos um grau suficiente de
autoconhecimento, de preenchimento, vivendo bem “resolvidos” nas principais
questões, quando nos sabemos aptos para enfrentar os problemas que surgem como
desafios e não como castigos da vida, tragédias que” só acontecem conosco”,
podemos afirmar que atingimos uma condição já satisfatória. Mas o objetivo da
terapia não é apenas remover incômodos, retirar dificuldades, nos tornar mais
fortes.
QUEREMOS MAIS
DA VIDA!
Como na
estória do elefante acorrentado, que desde pequeno tentara se libertar, atado a
uma estaca desde recém-nascido, e se acomodara à ideia de não ter forças para ousar
mais tarde, muitos se conservam presos a registros aceitos sob o comando de
“não posso, não devo, nunca poderei!”
Aos poucos, como numa escultura, percebemos que, por detrás
de tantos disfarces, (como dizia Michelangelo diante da pedra bruta), existe um
anjo a ser descoberto lá dentro! Aos próprios olhos, o sujeito portador do
problema não consegue se ver vitorioso, desvencilhado das amarras que o impedem
de seguir.
O trabalho
prático começa a funcionar através do
contato que acontece nas entrevistas entre o
terapeuta e o paciente. As comunicações vão tornando evidente o que precisa se enxergado, vão surgindo, através
da “livre associação” das idéias que traz, algumas pistas das “pedras” a que se
acostumou no seu percurso. Isso é “elaboração”.
O que está
escondido no inconsciente do analisando, suas memórias, algumas observações
entre suas falas distraídas, suas queixas, suas regras na maneira de levar a
vida, e entre esse material, para o
analista atento, as atitudes que o traíram, os hábitos que se
estabeleceram, deixando-o repetir, cegamente, atitudes que, aos poucos, o foram
adoecendo, fazendo-o perder o que não perderia,
se tivesse percebido antes. O terapeuta vai recebendo as informações na
“escuta psicanalítica”, guardando em sua memória para no momento adequado dar
um “ toque”, que se chama em psicanálise “ “pontuar”. Lembrando, se preciso, o
compromisso
entre o terapeuta e o cliente de passar por momentos de
dificuldades, e nenhum dos dois abandonar o barco.
Quando surgem
fases que encaminham o trabalho justamente para ir mais fundo e assim
descobrirem o que está atrapalhando para
levar melhor sua vida, surge o fenômeno (que vem do inconsciente)
chamado “ Resistência”. É como numa escavação, que se encontra uma camada mais dura e se vai, com cuidado, removendo.
Ou, como quando se inicia uma dieta, um curso, um namoro; qualquer coisa que
represente melhorar sua vida, também pode ocorrer esse fenômeno. É a antiga
memória de viver amarrado ao “não posso, não consigo”. As resistências precisam
ser corajosamente enfrentadas para que ele vá vencendo, passo a passo, com
dificuldade, mas determinação.
Quando a nossa
mente se recusa a enfrentar um assunto, ela promove algum tipo de fuga, que
pode ser um esquecimento, uma doença, uma racionalização (uma explicação
razoável para a pessoa não comparecer, como, por exemplo: “não tenho tempo, não
tenho dinheiro “...).
Às vezes, a
pessoa melhora um pouco e acha que já conseguiu muito: no fundo, é a velha
sensação de que não merece mais, de que está bom, assim. A nossa natureza
tende, sempre, a se acomodar. É preciso
atravessar a resistência.
E, quando conseguimos superar as primeiras e seguintes
barreiras, ficaremos surpresos e felizes ao nos acostumarmos aos novos padrões:
os de vivermos bem, em paz conosco, em harmonia com o que nos cerca, com a capacidade de melhorar tudo com o que
nos comunicamos.

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