TEXTO NOV/12:A BUSCA DO
CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - IV
OS BLOQUEIOS E RESISTÊNCIAS
QUE IMPEDEM REALIZAÇÕES NA
VIDA
Acostumado ao atendimento da
medicina comum, quem inicia o trabalho de uma terapia psicanalítica chega com a
expectativa de que, em pouco tempo, o analista, como faz o médico, vai
diagnosticar as causas dos seus sintomas, orientar... e pronto, é só seguir uma
receita. Mas a frustração começa quando, em primeiro lugar, o psicanalista não
lhe dá um diagnóstico: apenas o ouve, deixando que ele discorra sobre os
pensamentos que povoam seu mundo interior e também relate sua maneira de viver,
de agir, de ser relacionar.
A vaga insatisfação, a sensação de
infelicidade, a constatação de que nossos relacionamentos e objetivos sempre
terminam de forma insatisfatória, são algumas das razões que nos levam a
procurar uma terapia.
Ao longo da vida, investimos nossas energias na expectativa de sermos
amados pelo outro, assim como desde crianças aprendemos a agradar a
nossos pais ou àqueles que nos
observavam, aprovando ou reprovando. Acatamos a obrigação de desempenharmos
determinados papeis que nos foram designados. Sempre que essas exigências
estiveram acima de nossas forças, nos sentimos falhar ou experimentamos medo,
foi-se formando uma espécie de culpa.
Iniciando o processo de uma terapia,
sondando esses significados,
vamos
nos sentir confusos e perdidos de todas as referências conhecidas ... ao ponto
de nos confrontarmos e lançarmos a pergunta: -- afinal, quem somos? O quê
queríamos até agora? O quê desejamos daqui para diante? O quê querem de
nós? O quê podemos fazer por nós mesmos?
Vamos, aos poucos, identificando, em
nossa maneira de ser, formas de dor que poderiam ter sido evitadas. Revemos uma
tendência a repetir hábitos que causavam simpatia e apoio em alguns, mas que
iniciaram situações terrivelmente destruidoras em nossos sentimentos...
localizamos todo um cenário de atitudes e um vocabulário de palavras que
retratavam uma imagem cristalizada pelo orgulho de um sofrimento
desnecessário.
Começamos a perceber que a vida inteira
olhamos para as situações sempre de um mesmo ângulo, nosso olhar ficou viciado,
quando poderíamos ter ousado outras direções, outros espaços, que agora nos são
apresentados.
.O papel de sofredor talvez seja uma das últimas dificuldades a serem
removidas em algumas terapias, mas, se houver perseverança e coragem, virá uma
libertação nunca conhecida, uma leveza que parece abonar o sujeito de uma culpa
enorme incutida nele e que nem sabe como iniciou. Na raiz do hábito de sofrer,
mora essa culpa. Culpa de quê? Culpa de não corresponder ao que esperavam de
nós, culpa de ocupar um lugar de que não gostávamos, quando queríamos outra coisa... e nosso íntimo não perdoa: cobra, até nos adoecer.
Culpa de carregar esse peso desconhecido de
sermos apenas parte do que poderíamos ter sido... de amarmos apenas um
pouquinho, de termos sido amados apenas numa amostra do que tínhamos potencial
para vivenciar...
Em sua
obra “ Neurose e Psicose” , de 1924, Freud afirma que os pacientes não
acreditam facilmente em nós quando lhes falamos sobre o sentimento inconsciente
de culpa; e, portanto, não podem admitir que possam abrigar em si mesmos
impulsos em conflito com sua razão, sem estarem no mínimo conscientes deles.
Nesse
mesmo texto, Freud sugere, também, que existe, na natureza de algumas pessoas,
por razões diversas implantada, uma necessidade de autopunição (o sentimento
inconsciente de culpa). Enquanto não o
identifica, o sujeito continua a se sabotar e a atuar para sofrer prejuízos que
não entende por que aconteceram ( na realidade por que buscou), mas
é preciso algum tempo de análise e uma boa dose de confiança do paciente
no analista para aceitar esse fato.
O homem
comum prefere achar-se vítima da falta de sorte. Mas aquele que procura se conhecer melhor, acaba encontrando esse
mundo interior onde tantas razões se explicam. E se libertando das amarras que
o impediam de exercer suas próprias decisões, de , enfim, seguir seu livre
arbítrio.
