quarta-feira, 14 de novembro de 2012

TEXTO NOV/12:A BUSCA DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - IV



OS BLOQUEIOS E RESISTÊNCIAS
QUE IMPEDEM REALIZAÇÕES NA VIDA


            Acostumado ao atendimento da medicina comum, quem inicia o trabalho de uma terapia psicanalítica chega com a expectativa de que, em pouco tempo, o analista, como faz o médico, vai diagnosticar as causas dos seus sintomas, orientar... e pronto, é só seguir uma receita. Mas a frustração começa quando, em primeiro lugar, o psicanalista não lhe dá um diagnóstico: apenas o ouve, deixando que ele discorra sobre os pensamentos que povoam seu mundo interior e também relate sua maneira de viver, de agir, de ser relacionar.



             A vaga insatisfação, a sensação de infelicidade, a constatação de que nossos relacionamentos e objetivos sempre terminam de forma insatisfatória, são algumas das razões que nos levam a procurar uma terapia.
           
            Ao longo da vida, investimos  nossas energias na expectativa de sermos amados pelo outro, assim como desde crianças aprendemos a agradar a nossos pais  ou àqueles que nos observavam, aprovando ou reprovando. Acatamos a obrigação de desempenharmos determinados papeis que nos foram designados. Sempre que essas exigências estiveram acima de nossas forças, nos sentimos falhar ou experimentamos medo, foi-se formando uma espécie de culpa.

            Iniciando o processo de uma terapia, sondando  esses significados,
vamos nos sentir confusos e perdidos de todas as referências conhecidas ... ao ponto de nos confrontarmos e lançarmos a pergunta: -- afinal, quem somos? O quê queríamos até agora? O quê desejamos daqui para diante? O quê querem de nós?  O quê podemos fazer por nós mesmos?

            Vamos, aos poucos, identificando, em nossa maneira de ser, formas de dor que poderiam ter sido evitadas. Revemos uma tendência a repetir hábitos que causavam simpatia e apoio em alguns, mas que iniciaram situações terrivelmente destruidoras em nossos sentimentos... localizamos todo um cenário de atitudes e um vocabulário de palavras que retratavam uma imagem cristalizada pelo orgulho de um  sofrimento desnecessário.

             Começamos a perceber que a vida inteira olhamos para as situações sempre de um mesmo ângulo, nosso olhar ficou viciado, quando poderíamos ter ousado outras direções, outros espaços, que agora nos são apresentados.
           
            .O papel de sofredor talvez seja uma das últimas dificuldades a serem removidas em algumas terapias, mas, se houver perseverança e coragem, virá uma libertação nunca conhecida, uma leveza que parece abonar o sujeito de uma culpa enorme incutida nele e que nem sabe como iniciou. Na raiz do hábito de sofrer, mora essa culpa. Culpa de quê? Culpa de não corresponder ao que esperavam de nós, culpa de ocupar um lugar de que não gostávamos, quando queríamos  outra coisa... e nosso  íntimo não perdoa: cobra, até nos adoecer. Culpa de carregar esse peso desconhecido de  sermos apenas parte do que poderíamos ter sido... de amarmos apenas um pouquinho, de termos sido amados apenas numa amostra do que tínhamos potencial para vivenciar...

Em sua obra “ Neurose e Psicose” , de 1924, Freud afirma que os pacientes não acreditam facilmente em nós quando lhes falamos sobre o sentimento inconsciente de culpa; e, portanto, não podem admitir que possam abrigar em si mesmos impulsos em conflito com sua razão, sem estarem no mínimo conscientes deles.

Nesse mesmo texto, Freud sugere, também, que existe, na natureza de algumas pessoas, por razões diversas implantada, uma necessidade de autopunição (o sentimento inconsciente de culpa).  Enquanto não o identifica, o sujeito continua a se sabotar e a atuar para sofrer prejuízos que não entende por que aconteceram ( na realidade por que  buscou), mas  é preciso algum tempo de análise e uma boa dose de confiança do paciente no analista para aceitar esse fato.

O homem comum prefere achar-se vítima da falta de sorte. Mas aquele que procura  se conhecer melhor, acaba encontrando esse mundo interior onde tantas razões se explicam. E se libertando das amarras que o impediam de exercer suas próprias decisões, de , enfim, seguir seu livre arbítrio.




TEXTO AGOSTO/12>A BUSCA DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - I


         Terminei o texto do mês passado informando que, em nome do ofício de terapeuta que deseja um planeta melhor, iria dar minha pequena contribuição, através desta coluna, oferecendo o esclarecimento a  um maior número de pessoas, num trabalho de popularização da psicanálise.

         Confiante de que só conseguimos viver bem e contribuir para a comunidade quando conquistamos um grau crescente de autoestima e consequente bem estar, pretendo, em palavras simples, informar o caminho percorrido da maneira mais objetiva que encontrar, no desejo de que cada leitor verifique o que pode aproveitar da minha própria experiência.

O que nos leva a buscar uma terapia?

         No início do século vinte, quando era comum considerarem as pessoas que apresentavam problemas mentais, “ sofriam dos nervos”, como se dizia popularmente, já existia, nos meios de psicologia e psiquiatria, a prática da hipnose. Foi justamente no ano 1.900 que um jovem médico de Viena lançou seu livro “ A Interpretação dos Sonhos”. Através dessa obra, Sigmund Freud abriu um horizonte de inquietação para o mundo ocidental: apresentou o fato de que não é o que pensamos que resolve o que somos e o que queremos, mas existe uma outra instância dentro de nós que, gerando nossos medos e desejos, realmente decide as direções da nossa vida.

         Contrariando, assim, a máxima de Descartes, filósofo marcante do século XVII, até então nunca questionada: Penso, logo existo, com a dedução revolucionária para o pensamento humano:

 Penso onde não sou.

         Tudo o que se prega só passa a ter valor quando provado.  Freud comprovou sua teoria ao atender   pessoas consideradas incapazes de controlar suas emoções e levar uma vida equilibrada, entre elas, principalmente, as histéricas, vítimas de surtos psicóticos, convulsões , atitudes agressivas , melancolia e paralisias. No decorrer de seus tratamentos, à medida em que se revelavam traumas perdidos na memória da infância ,  os sintomas  passaram a recuar, a se espaçar e até  a  desaparecerem.
         No início, utilizava-se da hipnose, mas sua experiência lhe mostrou que seria mais eficiente através da conversa espontânea, que  denominamos livre associação: aos poucos, aquelas experiências recalcadas desde a fase não-verbal, (quando a criança ainda só absorvia a emoção sem conseguir se expressar ), dariam sinal de sua existência  sob a atenção e entendimento do terapeuta.
          Mas Freud descobriu que era preciso ir além da   liberação dos sintomas, que havia mais no fundo desses significados. Pesquisou muito sua própria mente, trocando pesquisas também com grandes doutores da época, como Breuer e Fliess. E criou o método que  vai além da cura dos sintomas : os sintomas são como folhas de uma planta que manifestam suas condições , mas está na raiz, enterrada fundo, a causa  do seu estado físico. Podemos comparar com uma doença física comum: a dor pode ser disfarçada com um comprimido, mas o porquê do sofrimento continua lá, esperando para ser compreendido.

         Respondendo à pergunta inicial:

         Além do sofrimento, da angústia, da ansiedade, que crescem à medida em que a pessoa não dá conta de todas as responsabilidades da vida com prazer ou pelo menos naturalidade, todos que buscamos nos conhecer melhor e entender por que tomamos certas atitudes repetidamente que sempre vêm a nos prejudicar, ou que estamos há tempo tentando viver de uma forma satisfatória e todos os métodos conhecidos falharam, para nós foi criada a psicanálise. E também para aqueles que querem aproveitar o potencial de suas qualidades e talentos e precisam descobrir como lidarem com suas próprias emoções sem se deixarem desviar do alvo .

Uma resposta extra:
        
         Muitas pessoas comentam que a psicanálise é inatingível para alguns, por causa do valor exigido, e isso tem uma resposta: é preciso que o analisando invista muito do seu esforço para um trabalho que vai mudar o seu destino. Se ele perceber,  mesmo contando com poucos recursos, por descontrole se endivida ou dispersa o que tem, sob o efeito da insatisfação.

TEXTO OUTUBRO/12:A BUSCA DO CONHECIMENTO
ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - III

O TEMPO DA TERAPIA:

         “– Quando nos chega um analisando novo e pergunta: quanto tempo você acha que vai durar o meu tratamento?...”,

lembro-me de que atribuem a Freud a resposta,  citando um hábito indígena:  “–  Comece a caminhar, e vamos ver o seu ritmo...

         Mês passado, iniciei o texto com uma citação:

“Tudo nos falta quando nos faltamos.”
De Goethe.

         Cito, agora, uma frase que cria uma linha de ligação com aquela:


“– Não se pode acrescentar uma gota de água a uma taça já cheia.” De Tolstoi, profundo conhecedor da alma humana.

        
Quando partimos da angustiante sensação da falta e atingimos um grau suficiente de autoconhecimento, de preenchimento, vivendo bem “resolvidos” nas principais questões, quando nos sabemos aptos para enfrentar os problemas que surgem como desafios e não como castigos da vida, tragédias que” só acontecem conosco”, podemos afirmar que atingimos uma condição já satisfatória. Mas o objetivo da terapia não é apenas remover incômodos, retirar dificuldades, nos tornar mais fortes.

         QUEREMOS MAIS DA VIDA!

         Como na estória do elefante acorrentado, que desde pequeno tentara se libertar, atado a uma estaca desde recém-nascido, e se acomodara à ideia de não ter forças para ousar mais tarde, muitos se conservam presos a registros aceitos sob o comando de “não posso, não devo, nunca poderei!”

Aos poucos, como numa escultura, percebemos que, por detrás de tantos disfarces, (como dizia Michelangelo diante da pedra bruta), existe um anjo a ser descoberto lá dentro! Aos próprios olhos, o sujeito portador do problema não consegue se ver vitorioso, desvencilhado das amarras que o impedem de seguir.

         O trabalho prático  começa a funcionar através do contato que acontece nas entrevistas entre o  terapeuta e o paciente. As comunicações vão tornando evidente o que  precisa se enxergado, vão surgindo, através da “livre associação” das idéias que traz, algumas pistas das “pedras” a que se acostumou no seu percurso. Isso é “elaboração”.
        
         O que está escondido no inconsciente do analisando, suas memórias, algumas observações entre suas falas distraídas, suas queixas, suas regras na maneira de levar a vida, e entre  esse material, para o analista  atento, as atitudes  que o traíram, os hábitos que se estabeleceram, deixando-o repetir, cegamente, atitudes que, aos poucos, o foram adoecendo, fazendo-o perder o que não perderia,  se tivesse percebido antes. O terapeuta vai recebendo as informações na “escuta psicanalítica”, guardando em sua memória para no momento adequado dar um “ toque”, que se chama em psicanálise “ “pontuar”. Lembrando, se preciso, o compromisso
entre o terapeuta e o cliente de passar por momentos de dificuldades, e nenhum dos dois abandonar o barco.

         Quando surgem fases que encaminham o trabalho justamente para ir mais fundo e assim descobrirem o que está atrapalhando para  levar melhor sua vida, surge o fenômeno (que vem do inconsciente) chamado “ Resistência”. É como numa escavação, que se encontra uma camada  mais dura e se vai, com cuidado, removendo. Ou, como quando se inicia uma dieta, um curso, um namoro; qualquer coisa que represente melhorar sua vida, também pode ocorrer esse fenômeno. É a antiga memória de viver amarrado ao “não posso, não consigo”. As resistências precisam ser corajosamente enfrentadas para que ele vá vencendo, passo a passo, com dificuldade, mas determinação.
        
         Quando a nossa mente se recusa a enfrentar um assunto, ela promove algum tipo de fuga, que pode ser um esquecimento, uma doença, uma racionalização (uma explicação razoável para a pessoa não comparecer, como, por exemplo: “não tenho tempo, não tenho dinheiro “...).

         Às vezes, a pessoa melhora um pouco e acha que já conseguiu muito: no fundo, é a velha sensação de que não merece mais, de que está bom, assim. A nossa natureza tende, sempre, a se acomodar. É preciso atravessar a resistência.
E, quando conseguimos superar as primeiras e seguintes barreiras, ficaremos surpresos e felizes ao nos acostumarmos aos novos padrões: os de vivermos bem, em paz conosco, em harmonia com o que nos cerca,  com a capacidade de melhorar tudo com o que nos comunicamos.


TEXTO SETEMBRO/12:A BUSCA DO CONHECIMENTO ATRAVÉS DA PSICANÁLISE - II “Tudo nos falta quando nos faltamos” Goëthe No texto anterior, terminei comentando que Freud, ao inaugurar a psicanálise, apontou para as origens do sofrimento, enquanto a medicina e a psiquiatria da época só buscavam eliminar os sintomas. Ele descobriu a força do inconsciente na geração das patologias, primeiro, através da hipnose, e, em seguida, utilizando apenas o processo verbal. Até hoje, nas sessões, sugerimos que o paciente se deite ou permaneça sentado e fale livremente tudo o que lhe vier à mente. Este método se denomina de livre associação. Pela livre associação, o analisando vai discorrendo sobre suas memórias, aquilo que o incomoda, suas mágoas e ressentimentos, suas inquietações antigas e recentes. E vão surgindo lembranças que fundaram situações marcantes, até um ponto em que podem desbravar descobertas úteis à solução de seus problemas. O analista, ouvindo o relato, permanece em silêncio ou apresenta suas opiniões, o que se chama pontuar. A atitude do analista se nomeia de atenção flutuante. Ele pode parecer distraído, mas sua atenção está sempre conectada com a linha de pensamento do analisando. Observando, por exemplo, atos falhos, que são palavras pronunciadas sem intenção, significantes trocados, tudo revela algum sentido na interpretação, trazendo o inconsciente puro para ser reconhecido. Ou, ainda, interpretando o significado de sonhos, também importantes pelo fato de virem direto do inconsciente para a descoberta das razões que há muito estão atuando sobre as ações daquele sujeito. TEXTO SET/12 Nossos Dois Lados Uma das descobertas importantes da psicanálise, ainda em Freud, foi o fato de existirem em nós forças diferentes vindas de uma origem psicofísica e que geram nossas ações, decisões, escolhas afetivas. Explicando de forma bem simplificada, podemos afirmar que todos temos dois lados que conduzem nossa vida emocional: aquele que trabalha num sentido destrutivo, denominado pulsão de morte, e o que contribui para atingir nossos objetivos de bem-estar, o positivo, pulsão de vida. O desânimo, levando à depressão, por exemplo, representa a pulsão de morte; o entusiasmo, a alegria, atitudes de colaboração, a pulsão de vida. Mas eles não estão sempre assim separados, esta é uma forma didática de descrever. Eles já existiam na explicação da formação do mundo, em Tanatos, a força da morte, e Eros, a força do amor e da vida, na filosofia grega. Na condição de seres humanos, corremos sempre o risco de, enganados pela ilusão de alguns desejos, nos deixarmos guiar por impulsos que dispersam o sentido de nossas verdadeiras intenções. Seria, nesse caso, a predominância da pulsão de morte sobre a pulsão de vida. A terapia vem, então, para nos revelar onde e quando atuamos contra nossa própria vontade, a que formas inconscientes estão nos comandando, a despeito de nossa vontade principal. Se observarmos, esse tema inspira quase todos os roteiros de filmes, novelas e dramas em geral: a luta para se atingir um ideal de felicidade e as forças contrárias internas e externas atuando em desfavor. Revendo, nas sessões de análise, os acontecimentos, as perdas e os ganhos de nossa existência, vamos reconhecendo o que nós mesmos fizemos “ sem querer” para não realizar determinados objetivos, como contribuímos para desfazer uma relação amorosa, uma harmonia familiar, um empreendimento que poderia ter sido bem sucedido. Vamos, aos poucos, nos familiarizando com nossas “ forças ocultas “, e entrando na verdadeira intimidade do nosso verdadeiro “eu”. V