sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Setembro/10


O ENCONTRO

Ouvindo a descrição de um amigo chegado de Manaus sobre a força expressiva do encontro das águas do rio Negro com o Solimões, meu pensamento, à medida em que ele descrevia como no início é tumultuado o encontro desses dois, começou a imaginar o que acontece em algumas relações humanas.
O Negro, maior aflutente da margem esquerda do Amazonas, o mais extenso rio de água negra do mundo, e o segundo maior em volume de águas — une-se ao Solimões, e a partir desse encontro se tornam o maior rio do mundo, o Amazonas.
De origens diversas, cada um traz em sua natureza diferenças que perduram durante uma longa parte do caminho. Mas a união fica tão forte que as diferenças vão se desfazendo e prevalece a soma; eles, mais para adiante, vão- se unificando e suas águas ficando mais calmas; o próprio nome , como acontece com muitos casamentos, se converte num só.

Aproveitando a lição da natureza, para que aconteça um encontro significativo entre duas pessoas, precisamos levar em conta as origens de cada um, os registros que trazem de suas histórias.
Outro dia ouvi a seguinte frase: O passado nunca morre. Ele nem sequer é passado.
Se por um lado existe um componente que identifica aqueles que se vão amar, ainda restam, apesar dessa sintonia, muitos significados a serem trabalhados. Cada um carrega consigo a soma de caminhadas; uma palavra que consegue feri-lo muito, para o outro pouco representa. Será com essas diferenças que se vai construir história. Criar novas mensagens.
Uma das questões é identificar até onde a tolerância de cada um aceita encostar nas prioridades do alheio, qual a distância que desenha o respeito pelo parceiro de famíla, amor, trabalho, sem restar a sensação de que a vida continua lhe devendo algo.
Em seu magnífico livro O Profeta,Gibran Kahlil Gibran fala aos amantes para que bebam do mesmo vinho, mas não da mesma taça.
Rainer Maria Rilke nos ensina, em seu livro Cartas a um Jovem Poeta, que os muito jovens, encantados com a descoberta da paixão, correm o risco de desmancharem seus limites um no outro e se perderem de si mesmos, acabando, assim, por empobrecer o próprio amor.
Quando se chega para um encontro de vidas, inicia-se um processo de revelações: aos primeiros contatos, todo um sistema neuronal de zonas distintas do cérebro favore um estado de euforia que tudo embeleza e estimula. Na continuidade da convivência, vão-se apresentando os traços da personalidade onde estão presentes medos, fantasias de perda, onde muitas vezes um dos dois não consegue aceitar que tem o direito de ser feliz. Que a vida pode ser boa. Mesmo com todos os fatos lhe oferecendo oportunidade de se sentir abençoado pela saúde e amor, mantém a expectativa de que em breve tudo poderá se diluir. A força dos traumas experienciados na infância, a convicção formada por uma culpa que se instalou, nega-lhe a paz de espírito e evita que receba um prêmio por temer perdê-lo logo adiante.Uma culpa que precisa ser tratada até ocupar sua posição de normalidade, ou melhor: voltar a ser apenas uma semente no inconsciente.

Como a junção desses dois rios, toda união terá um sentido maior quando cada um souber , sem perder seus próprios valores, se entregar de alma aberta; não lamentando os desencontros anteriores, mas agradecendo à vida por todos os tumultos e dificuldades passados: foi através deles que se tornaram prontos para o encontro mais completo.

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