quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Outubro / 10

AS DUAS ÁRVORES, A PAIXÃO E O DESAFIO DA UNIÃO

Um dos benefícios de fazermos análise é adquirirmos coragem de dizer o que pensamos e fazer o que desejamos sem o temor de desagradar a quem nos provoca ações que não gostaríamos de atender.
Por que tanta gente tem atitudes das quais depois se arrepende? Por que lhes falta a coragem de não se deixarem levar pela pressão de pessoas que lhes torcem a vontade, sejam amigas, parentes ou parceiros de alguma atividade? Temem dizer não às reivindicações alheias, por medo de desagradar, receio de perder a amizade.
O ser humano, desde criança, precisa aprender a delimitar os seus contornos e a reconhecer as fronteiras do seu espaço com relação aos outros. Se não aprendeu na tenra idade, sente cada vez mais dificuldade em expor sua própria vontade e definir seus direitos para com os que vivem perto.
Viver só. Viver perto. Viver junto. A arte de conviver é sempre um desafio. Os desafios podem ser recebidos com entusiasmo. Alguns preferem fugir deles.
O mundo inconsciente, a parte oculta da mente, é um campo onde se escondem emoções e sentimentos que se teme reconhecer. Porque exigem atitudes isentas e adultas.
Observando duas árvores muito bonitas, notei que estavam num determinado ponto tão entrelaçadas que pareciam ser uma só. Mas em seguida cada uma se organizava ao lado, individualizada, gerando seus próprios ramos e folhas.
Metaforizando para o humano, pensei no encontro de grande paixão, quando o casal, tomado pelo encantamento, se torna um só. E como tudo na natureza não se mantém igual, a própria vida exige que se continue evoluindo, realizando missões, produzindo. Só que alguns, paralisados pelo prazer, pois o prazer, como o medo, também pode paralisar, negam –se a continuar amadurecendo e cumprindo com os outros papéis que se espera dos adultos, meio inconscientemente decidem se manter nessa fase, recusam a responsabilidade dos encargos que vêm junto com o compromisso do amor . Partem indefinidamente para novas paixões, como se só quisessem saborear o mel da relação. É o que acontece com tantos que, depois de algum tempo, buscam aventuras. Não conseguem vivenciar a outra fase da beleza da vida, onde cada um assume seus encargos e se desenvolve, fortalecendo-se a partir da realidade.
Lendo “O Mal, o bem e muito além”, de Flávio Gikovate, encontrei um reforço para o pensamento acima:
O individualismo corresponde, de fato, a uma aquisição importante: maior capacidade para ficar sozinho...
... busca a aproximação, e não a fusão com o parceiro. À aproximação de dois inteiros tenho chamado de +amor, mais que amor, algo que se aproxima muito da amizade, do companheirismo. Trata-se de uma aliança que ameaça muito menos a individualidade e que é muito mais compatível com a realidade dos dias que correm.

Alguém assim libertado terá estrutura, mais tarde, na velhice, e forças capazes de amparar o outro, se necessário; ou, acontecendo de perdê-lo, num dos pontos do caminho, mesmo assim conseguirá sobreviver bem.
Como as duas árvores, é bonito ver um casal unido, mas mais lindo ainda quando se observa que ambos superaram as dificuldades do percurso; respondendo criativamente aos desafios de sua história.

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