terça-feira, 20 de julho de 2010

Texto Julho 2010 na Prana

MENSAGENS-CARTAS DE EMOÇÃO


“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso: Nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro... há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é a relação em si mesmo”. (Clarice Lispector)



Alguém anônimo me escreve; narra o quanto tem sofrido pela falta de um amor. Atribui essa falta, praticamente, ao destino que lhe roubou oportunidades. Ela realmente se deixou marcar por acontecimentos desencorajadores, parece desacreditar de tudo. Não lhe sobram forças para tentar novas possibilidades.

Será?... alguém que não espera mais nada do caminho, talvez não se animasse nem a escrever para uma estranha, apesar da identificação pelas palavras.

Lembro-me de várias histórias reais que conheço de pessoas que perseveraram muito, passaram por dificuldades imensas. Estavam, no início, tão frágeis que era preciso esperá-las ter ânimo para começar a falar. Falar doía. Recordar os motivos da tristeza, também. Esperei, sempre dando espaço para que as mágoas se apresentassem, uma a uma. Difícil não me contaminar com tanta angústia. Sabia que, como diz o pensamento acima, de Clarice Lispector, uma estrutura, mesmo sustentada por partes defeituosas, não deve ser abordada de qualquer maneira; tudo pode ruir. Mas prosseguiram, mesmo descontentes em vários momentos; encontraram soluções aparentes; decepcionaram-se novamente. Continuaram determinadas. E chegaram lá. Como é bom reconhecer aqueles que seguem adiante, apesar dos desacertos! Como é bom ver a recompensa de quem não se deixa vencer pelos primeiros, segundos... muitos fracassos!

Quem consegue dar um novo passo em busca de ajuda, mesmo experimentando insucessos, abre para si mesmo condição de analisar o que compõe cada situação perdida. Começará a reconhecer pontos comuns em todas elas. E terá oportunidade de criar uma nova sequência de acontecimentos. Um tempo presente melhor.

O que impede de tentar mais uma vez é o fato de a maioria de nós carregar sempre consigo um passado já vivido. Não ter perdoado ou o que aconteceu, ou o que lhe fizeram ou o que se permitiu sofrer.

O apego a memórias de culpa é um dos fatores mais atuantes a nos deprimir.

Quando o mundo externo se escurece para nós, voltamos os nossos olhares para dentro. E ali, por vezes, avistamos o segredo da existência.(1)

... estabelecer uma relação com a nossa depressão. Devemos como que colocá-la diante de nós, olhar para ela, questioná-la: O que quer me dizer? Que mensagem tem para mim? ... O que eu deixei de ver na minha vida? Onde eu me sobrecarreguei e passei dos meus limites? De que imagens próprias eu deveria me despedir? De que posturas internas (perfeccionismo, querer ser bem visto em toda parte, sentir-se obrigado a atender a todas as expectativas) eu deveria abdicar? (2)

Apesar de estar sem vontade, eu me levanto. Estou depressivo. Mas, mesmo assim, sou capaz de dar o primeiro passo para fora da cama...(3)

... Não se trata de reprimir a depressão com a vontade, mas de contatar a minha vontade através da depressão.(4)


A física quântica nos orienta para a possibilidade de substituir uma situação por outra, sob a influência de nosso pensamento. Escolhendo uma atitude de frequência vibratória que tende para o lado positivo, da alegria, como que fabricamos um clima para que se manifestem bons fatos. (5) Mas o que acontece com a maioria que se diz insatisfeita com sua vida é uma repetição de padrões que, mesmo incomodando, não conseguem superar e trocar. A manutenção de um determinismo que não se reconhece como agente do próprio destino.

Há casos em que banir uma determinada situação funcionaria mais ou menos como o pensamento inicial: causaria um desmoronamento. Mas sempre é possível aparar arestas, procurar amenizar desconfortos, impor uma vontade, contra a confortável omissão. Não virar a mesa não quer dizer, necessariamente, aceitar as coisas postas do jeito só escolhido pelos outros.

Existe, entre nossos pensamentos, um abordagem inconsciente que parece tomar a direção de fatos na vida que mais tarde nos parecem sequências programadas.

Como alcançar o coração de alguém que se diz desesperado? Que afirma desacreditar das várias terapias conhecidas? Que já não tem certeza de sua prática religiosa?

O excesso de buscas denuncia a inexistência de uma só terapia profunda que tivesse chegado ao inconsciente e alterado seu comportamento; a prova de que uma terapia teve efeito é a mudança do comportamento que gerava sofrimento para um estado de alma melhor, ações produtivas, autoconfiança.

O que alguns denominam de muitas tentativas não foram expectativas lançadas em direções perdidas. De alguma forma contam como bagagem para um recomeçar. Por que não tentar mais uma vez? Pode ser que o entendimento esteja mais próximo do que se imagina.




Notas 1-2-3 e 4 :
Do livro: O tratamento espiritual da depressão.
de Anselm Grün
Ed. Vozes,2009

(5)- Sugiro a leitura de : Criatividade Quântica
de Anit GoswamiEd. Aleph

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