domingo, 7 de novembro de 2010

texto nov.10
A GENEROSIDADE QUE PREJUDICA
UM PROBLEMA PRÁTICO QUE CAUSA MUITO SOFRIMENTO EM FAMÍLIA

A mente que se abre a uma nova idéia, jamais volta ao tamanho original. Albert Einsten

Quando entendemos uma situação claramente, por mais difícil que nos seja, precisamos mudar nossa atitude.
Problemas em família: são muitas e variadas as situações em que se identifica, numa família, um dos membros como aquele que sempre dá conta de suas responsabilidades, é o procurado para solucionar problemas e socorrer nas dificuldades.
O que será que acontece, em sua mente, quando medita sobre o que significa para aqueles que sempre ajuda ? Pergunta-se de vez em quando como seria na situação inversa, até que ponto contaria com o apoio daqueles a quem sempre atende?...
Se não consegue responder a essa pergunta, uma certeza tem: ao longo de toda sua existência conseguiu observar as causas, as raízes mesmo, dos momentos em que seus beneficiados iniciaram o processo de seus erros: estava claro, diante de seus olhos, quando os via assumirem compromissos acima de suas posses, assistia às promessas que, sabia, eles não estariam hábeis para cumprir. Mas ao mesmo tempo, sentia-se impedido de expressar um comentário ou crítica. Via, diante de si, um muro de defesa gritando: “Não me venha com críticas, não desmanche a sensação deste momento em que me sinto grande, poderoso, feliz!” Quando tentava uma frase de juízo, de advertência, era visto como “estraga prazeres”, ou até invejoso, que não conseguia ver as pessoas bem, alegres.
Só que a falsa alegria dura pouco. Algum tempo depois, aqueles mesmos que resistiram tanto à sua tentativa de enxergar a realidade, vinham, humildemente, ou dramatizando, pedir seu apoio. Fazendo-se de vítimas da sorte, afirmando não querer ouvir conselhos, mas contando com a sua generosidade.
A história se repete assim de geração para geração. São inumeráveis os exemplos de situações em que pais, irmãos, filhos, parceiros atuam vivendo na fantasia para em seguida buscarem ajuda. Palavras dramáticas, apelos desesperados. E aquele que teve juízo em programar sua vida dentro de limites possíveis aos seus passos, muitas vezes desequilibra seu orçamento, suas forças e seu emocional para atender aos que ama. Pensando que a única forma (como lhe apresentaram) de continuar amando e sendo amado é atender ao pedido. Que, deixando de atender, estará falhando no seu amor, perdendo o afeto daqueles de quem gosta e cuida. Que dele depende a salvação daqueles que, mais uma vez, em sua megalomania, perderam e controle.
O que diferencia muito essas pessoas que contam com os outros é que com certeza vão continuar nesse comportamento até o momento em que sentirão um limite nas suas reivindicações. Até que consigam parar e tentar entender onde erram. Até que não voltem a pedir apoio já com a frase preparada: “Não interessa agora ver de quem é a culpa. Preciso da ajuda.”
Mas se àquele que conta ilimitadamente com o apoio da generosidade do outro falta uma visão crítica das causas que o levam a repetir o comportamento, também uma responsabilidade cabe, e grande, ao que está sempre disponível para atender.
Irônico, mas talvez o mais responsável seja justamente aquele que sempre está pronto para “tapar os buracos” dos que se dizem necessitados, e que ele atende por senti-los mais fracos. Se ele finalmente, através de um conselho ou uma terapia, se der conta do mal que está ajudando a construir e tentar se negar, qual sua surpresa ao perceber que tudo que já fizera antes em prol do outro será considerado perdido, o grande afeto e toda doação do passado de sua vida será cancelado no “não” do presente...
Um jogo está no tabuleiro da vida para ser entendido. Um gesto afeta o conjunto. Valerá à pena continuar se chantageando pela própria necessidade de sentir-se querido, mesmo que sob condições? Ou se deu conta, enfim, de que chegou o momento de não se deixar ser usado e executar sua verdadeira ajuda, na atitude sadia (que poderá ser interpretada como egoísmo) de interromper esse engano?

Este assunto está se tornando uma constante na clínica da terapia familiar, por isso escolhi como tema. Parece não se enquadrar nem em psicanálise nem em esoterismo, o título desta coluna. Mas tem tudo com ambos: psicanálise, porque trata de um dos trabalhos mais difíceis no desenvolvimento de nossa autoestima. E esoterismo: entra no conceito do que é a verdadeira generosidade, sem pieguismo nem necessidade de se sentir espiritualmente bom.

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