terça-feira, 20 de julho de 2010

Texto de 05/2010
Revista Prana

A MAGIA DO SETTING
Aplicando a neurociência à prática da psicanálise


É o conhecido que temos medo de largar. O conhecido é memória – memória a que nos apegamos. Mas a memória é apenas uma coisa mecânica – como os computadores o provam sobejamente. No morrer para o conhecido, aí está o começo da compreensão da morte, porque a mente então se torna fresca, nova, e nenhum medo existe.
Krishnamurti - A Mente sem Medo
- Ed. Cultrix

Se você tratar um indivíduo como ele é, ele permanecerá como tal. Mas, se você o tratar como se fosse o que deve e pode ser, ele se tornará o que deve e pode ser.
Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832 )



Quando se trata de algum problema no setting (o espaço em que se faz terapia), ao ouvir a própria voz relatando ao analista suas fantasias, suas angústias, a questão começa a perder o mistério, inicia-se uma transformação. Com o tempo, o problema se desmistifica.

As atuais pesquisas na área da neurociência podem comprovar, através do mapeamento do cérebro, o que em parte Freud intuiu em seus estudos, inaugurando o processo de o analisando narrar seus questionamentos na sessão. É nesse espaço que a mente vai reorganizar seus sistemas de crenças, provocando alterações nas conexões neuronais. Simultaneamente vão sendo enfraquecidos os sintomas trazidos como queixas.

Um dos trabalhos do analista: perceber o ritmo, o timing do analisando. Deixar que ele processe por si mesmo suas conclusões até ter assimilado internamente.

Conflitos de relacionamento na vida pessoal e profissional acontecem como fruto de experiências mal resolvidas, o sujeito vê nas pessoas com quem convive situações que sua memória emocional registrou no passado em suas conexões mentais.

Quando alguém acredita numa dificuldade que teme, de alguma forma está determinando um caminho em sua mente e em seu cérebro, reforçando suas vias neuronais naquele sentido.

Elaborados esses medos, raízes de pânico, ameaças e preconceitos, abre-se a oportunidade para a realização de sonhos até então inatingíveis.

Algumas pessoas já sofreram tantos fracassos que iniciam as tentativas sabendo que não vão ter bom resultado. Quando dizem com voz desanimada: Já sei como vai ser de novo, mas vou tentar... estão praticamente assinando sua desistência, não porque não queiram, mas porque desconhecem a importância de abrir novas vias, novas sinapses; novas direções de vida.

Como mudar um medo, uma crença? É difícil mudar um condicionamento, mas é bem possível deixar de alimentá-lo e iniciar um outro totalmente novo.
No livro:Liderança Tranquila - Não diga aos outros o que fazer, Ensine-os a pensar, de David Rock, Editora Campus, (2.006) lemos na página 25 :
Então, se você deseja mudar seus hábitos, basta liberar menos energia para os hábitos que o desagradam.

Simplificando muito: sempre que experimentamos uma atividade, tomamos uma decisão inovadora, estamos criando circuitos que não existiam até o momento, liberamos algum processo de mudança.

Ao longo das sessões, um novo percurso se desenha no cérebro e na vida do analisando.

No próprio setting, às vezes, acontece aquele momento mágico, um insight (uma percepção especial) que lhe revela associações de idéias, inaugura aspectos de antigas questões.

Mas o que minha experiência tem mostrado é que, dependendo do ponto em que está o processo da terapia, alguns se motivam e vão em frente atentos aos desafios, outros se assustam, criando defesas para enfrentar o caminho do desconforto que sempre causam as descobertas; os mais determinados começam lentamente, a partir daquele marco, a operar transformações em seu comportamento. A realidade interna e externa não seguem um mesmo ritmo. Por que essa dificuldade em algumas pessoas mais do que em outras? O sistema de conexões em algumas pode ter sido mais reforçado pelas experiências negativas recorrentes.Tornando-as mais desconfiadas ou mais lentas nas descobertas.


Na obra: O Cérebro nosso de cada dia, de Suzana Herculano-Houzel (8ª edição da Vieira & Lent), estudamos que a possibilidade de desenvolvermos nossas habilidades está na mais maravilhosa e característica propriedade do sistema nervoso: a capacidade de fazer novas combinações entre seus elementos, e de mudar a eficiência das conexões – as sinapses já existentes.

Essa informação nos estimula a acreditar que temos condição de reconstruir nossos destinos, através da mudança de hábitos. Quanto mais trabalhamos nossos pensamentos em favor da melhor qualidade de vida, mais nos tornamos capazes.

Abre-se um campo ilimitado. Deixando para sempre a atitude de quem se viu, um dia, repetindo uma rotina que parecia condenada ao sempre.

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