A FIGURA DA MÃE NA PSICANÁLISE
Ao longo da clínica e no conteúdo de muitos estudos, verificamos, sempre, como a atuação da mãe funciona, influi e revela um poder determinante no emocional dos filhos. Lendo Dez Mulheres, da autora que me impressionou muito bem , a chilena Marcela Serrano, confrontei-me novamente com o tema que mais gera material para análise: a figura da mãe na nossa vida.
Cada capítulo apresenta o caso de uma paciente, que revela, na primeira pessoa, sua história quase sempre pungente. Identifico nelas a mesma presença da depressão, da angústia encontrada em tantas brasileiras crescidas na transição de sistemas fechados, sob uma educação reprimida. E encontro naquelas que contaram com o apoio afetivo da mãe um marco diferencial: conseguem reunir mais determinação para entrarem em contato com as dificuldades. Conseguem carregar um dom precioso: uma autoestima satisfatória.
Num trecho, ela expressa com leveza: todas recebemos uma quota de tédio, um limite para aguentar. Ao completar sua quota de tédio, pule fora, sugere ela, “ saia, termine, não se machuque.” Quantas de nós seguimos o rastro de uma feminilidade fraca, que não consegue dizer não e vai além dos seus limites de sofrimento... aprendeu a suportar, a aceitar, a relevar... como sua mãe fazia.
E noutro:
“ Dizem que tudo se repete, tudo volta a acontecer geração após geração, avós, mães, filhas, uma linha eterna. Até que alguma delas a rompe, dá uma virada e quebra a repetição. “
É isso que o trabalho psicanalítico nos pode dar: primeiro, consciência de que não queremos aquele papel para nós, depois coragem para desapegar do que identificamos que nos atrapalha para ficarmos libertas e, em seguida, forças para quebrar a sucessão de hábitos repetitivos. Lucidez para escolher nosso próprio caminho.
Não é fácil: são anos de trabalho para, primeiro, identificar o que vem nos forjando, numa educação moralista. Porque, como afirma a autora citada: “ O que mais enceguece é o mais familiar”.
Difícil reconhecer, elo por elo, da corrente invisível que desde muito cedo sempre nos prendeu. Desembaralhar, dos hábitos diários, as teias armadas pelo costume de obedecer sem questionar.
Por que parece tão importante buscar a liberdade?
Porque chegou o momento de não mais sofrer como a maioria de nossas mães. De admirar aquelas que já souberam saltar fora da armadilha tão bem engendrada que apresentava a vítima como heroína. De seguir , abrindo um caminho de resgate, de atravessar seu tempo de vida sem assumir-se culpada por ter conhecido o prazer. E, assim, sem necessidade de provar nada para o mundo, usufruir do fato de acordar sem angústia, sem ansiedade, por ter aprendido a se aceitar como é, não temendo mais estar além ou fora dos padrões estabelecidos por uma sociedade limitada a preconceitos.

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