sábado, 5 de fevereiro de 2011

Texto fev/2011

A LIBERDADE QUE ESCRAVIZA


Se eu pudesse deixar algum presente para você, deixaria aceso o sentimento de amor à vida dos seres humanos. Deixaria a consciência de aprender tudo que nos foi ensinado pelo tempo afora. Lembraria dos erros que foram cometidos, como sinais para que não mais se repetissem. A capacidade de escolher novos rumos deixaria para você, se pudesse e o respeito àquilo que é indispensável, além do pão, o trabalho e a ação.
E, quando tudo mais faltasse para você, eu deixaria, se pudesse, um segredo: o de buscar no interior de si mesmo, o respeito e a força para encontrar a saída.
Gandhi


Liberdade. Esse poder sonhado pelas criaturas limitadas pela morte. Mas que carregam o infinito na alma. O que dizer, como tratar aqueles que perderam quase tudo, como nossos irmãos da região serrana? Como ainda ter coragem de falar em buscas, ideais, decisões? Confesso que estava muito difícil escrever este texto. Sei que todos temos como certeza absoluta o fim da nossa passagem, mas ao se confrontar com a dor daqueles que não estavam preparados para tanto luto, serão possíveis, aceitas, permitidas as palavras? Parece um supremo luxo o ato de escrever simultâneo ao espetáculo da tragédia presente. Mas quem está preparado? Como saber? As palavras de Gandhi, de certa maneira, me obrigaram a retomar minha forma de atender às dores da vida: ativando o pensamento e o conectando à fonte. Entregando-me e me colocando à disposição do que está por vir. E se as palavras, como o espíritos, não se tocam com as mãos, não nos abraçam, ainda são elas que nos encaminham para a compreensão de nós mesmos e daqueles que escolhemos para compartilhar. É através das palavras, meu material de trabalho, que assisto à melhora dos que começam a vencer seus obstáculos emocionais.

A liberdade. Hoje mais exacerbada que noutros tempos culturais, vem como resultado de filosofias existencialistas e do pragmatismo do descartável. Submeter-se à disciplina de valores fundamentais que reconhecem o sentido do indestrutível seria a direção a tomar.

De formas diversas deixamos que os acontecimentos nos façam parar: quando apaixonados por alguém, mobilizando nossos sentidos numa obsessão – e todas as atividades quase cessam para nos dedicarmos àquele foco; logo após fortes doenças e perdas, perdurando o tempo de nossa atenção no sofrimento, ou ainda dedicados a uma missão especial, uma vocação definida... mas existe uma forma que nos pode escapar: quando, evitando prender-se a qualquer envolvimento, nosso espírito decide não escolher entre uma e outra coisa. Experimentando a sensação de uma falsa onipotência. Sentimos como se tudo nos fosse permitido, e na divisão ambígua de dominar os dois lados, caímos noutra espécie de escravidão. Tornamo-nos incapazes de nos comprometer. Incapazes de obedecer aos elos do amor, da vocação, de nos desgastarmos numa ação nobre e aceitar os efeitos do tempo que a todos atinge. Ocupando o lugar de quem, em psicanálise, poderíamos denominar de narcisista.

A palavra decidir vem da latina decidere, que significa cortar. Para optar livremente por alguma direção, vem sempre a inevitável escolha. Lembrando-nos de que somos limitados. De que, ocupando o nosso lugar, andando num espaço, assumimos nosso lado, admitimos o outro, somamos e assim compomos uma vida mais completa. Ao querermos tudo, paralisamos, acabamos não indo para direção alguma. Perdemos o tempo, a vocação, a oportunidade. Se procurarmos ocupar bem nossa posição, e parte dela não fomos nós que escolhemos, teremos na atitude de simplicidade exercido a liberdade que nos é possível. Se o acaso do fim chegar, como sempre chega, num instante imprevisto, teremos, pelo menos, a resposta do amor e da dedicação para entregar. Como nossos outros irmãos sobreviventes, que estão oferecendo seu carinho voluntário àqueles que viram parte de si mesmos se desprender.

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